Por que as mesmas progressões aparecem em milhares de músicas
Você já teve a sensação de que certas músicas soam parecidas, mesmo sendo de estilos e épocas diferentes? Não é coincidência. A música popular (pop, rock, blues, country, sertanejo, MPB) reutiliza um punhado de progressões harmônicas que funcionam tão bem que se tornaram a espinha dorsal de praticamente toda canção que você já ouviu.
Não existe plágio nisso. Progressões de acordes não têm direito autoral — são estruturas, como pilares de uma construção. O que muda é o que cada artista faz em cima: melodia, ritmo, arranjo, letra, timbre. A mesma sequência I-V-vi-IV sustenta "Let It Be" dos Beatles e "Someone Like You" da Adele, e ninguém confunde uma com a outra.
Se você entende o campo harmônico, já sabe de onde vêm os algarismos romanos. Se ainda não, a ideia é simples: cada grau da escala gera um acorde, e usamos números romanos para representar esses acordes de forma genérica, independente do tom. Assim, I-IV-V em Dó maior é C-F-G, mas em Sol maior é G-C-D. A progressão é a mesma, as notas mudam.
I-IV-V: a base de tudo
Se existisse uma progressão "mãe", seria essa. I-IV-V (primeiro, quarto e quinto graus) é o esqueleto do blues, do rock and roll, do country e de boa parte da música popular ocidental.
Por que funciona
O acorde I é o "lar" — a tônica, o ponto de repouso. O IV gera uma sensação de movimento, de saída da zona de conforto. O V cria tensão máxima (especialmente como acorde dominante, com sétima menor) que pede resolução de volta ao I. Essa dinâmica de repouso → movimento → tensão → resolução é a base da harmonia tonal.
Exemplos em músicas reais
- "Johnny B. Goode" (Chuck Berry) — o hino do rock and roll é I-IV-V puro
- "La Bamba" (Ritchie Valens) — I-IV-V em loop do início ao fim
- "Twist and Shout" (Beatles) — I-IV-V com energia contagiante
- "Wild Thing" (The Troggs) — I-IV-V na sua forma mais crua e direta
- "Louie Louie" (The Kingsmen) — o riff que definiu o garage rock
Na guitarra
Em tons populares para guitarra: - Tom de Mi (E): E - A - B - Tom de Lá (A): A - D - E - Tom de Sol (G): G - C - D - Tom de Ré (D): D - G - A
Pratique tocando I-IV-V em diferentes tons usando acordes abertos e depois com pestanas. Ao usar um [PRODUCT:looper], você pode gravar a base rítmica e praticar solos e improvisos por cima — é uma das melhores formas de internalizar como cada progressão soa.
O 12-bar blues: I-IV-V expandido
O blues de 12 compassos é a aplicação mais famosa do I-IV-V. É uma forma fixa de 12 compassos que repete em loop:
- Compassos 1-4: I - I - I - I
- Compassos 5-6: IV - IV
- Compassos 7-8: I - I
- Compassos 9-10: V - IV
- Compassos 11-12: I - V (turnaround)
Em Lá (A): - A - A - A - A - D - D - A - A - E - D - A - E
Essa forma aparece em "The Thrill Is Gone" (B.B. King), "Pride and Joy" (SRV), "Johnny B. Goode" (Chuck Berry), "Crossroads" (Cream/Robert Johnson) e literalmente milhares de outras músicas de blues e rock.
Dica
Se você está começando a improvisar, o 12-bar blues é o melhor campo de treino. Coloque um backing track de blues em A, use a escala pentatônica de Lá menor e solte os dedos. Mesmo com poucas notas, vai soar musical porque a estrutura harmônica é tão sólida que segura qualquer coisa.
Variações do 12-bar
- Quick change: o compasso 2 vai para o IV em vez de ficar no I, criando mais movimento
- Turnaround de jazz: o compasso 12 usa I-VI-ii-V em vez de simplesmente V
- Blues menor: troca os acordes maiores por menores (i-iv-v), com um clima mais sombrio
- Slow blues: 12 compassos em andamento lento, cada acorde com duração maior — mais espaço para expressão
I-V-vi-IV: a progressão pop por excelência
Se I-IV-V é a mãe do rock e do blues, I-V-vi-IV é a rainha do pop. É possivelmente a progressão mais usada em músicas de sucesso dos últimos 30 anos.
Exemplos que você conhece
- "Let It Be" (Beatles) — C - G - Am - F
- "Someone Like You" (Adele)
- "No Woman No Cry" (Bob Marley)
- "With or Without You" (U2)
- "Can You Feel the Love Tonight" (Elton John)
- "Complicated" (Avril Lavigne)
- "When I Come Around" (Green Day)
A lista é quase infinita. O canal Axis of Awesome ficou famoso com um vídeo tocando dezenas de hits diferentes sobre exatamente essa progressão, sem mudar um único acorde.
Por que funciona
A sequência cria um ciclo emocional perfeito: estabilidade (I) → elevação (V) → melancolia (vi menor) → suspensão (IV). É satisfatória o suficiente para repetir indefinidamente sem cansar. O acorde menor (vi) adiciona uma pitada de emoção que o puro I-IV-V não tem.
Na guitarra
Em Sol maior (tom muito popular no violão/guitarra): - G - D - Em - C
Em Dó maior: - C - G - Am - F
Ambos usam acordes abertos comuns. Se você está aprendendo acordes básicos, essa progressão é uma das primeiras a dominar — com ela, você já toca dezenas de músicas.
I-vi-IV-V: o som dos anos 50
Antes do I-V-vi-IV dominar o pop moderno, a inversão I-vi-IV-V reinava nos anos 50 e 60. É frequentemente chamada de "progressão doo-wop" por sua associação com o estilo vocal harmonizado dessa era.
Exemplos clássicos
- "Stand By Me" (Ben E. King) — A - F#m - D - E
- "Earth Angel" (The Penguins)
- "All I Have to Do Is Dream" (Everly Brothers)
- "Every Breath You Take" (The Police) — versão modernizada
- "Unchained Melody" (Righteous Brothers)
O que muda em relação ao I-V-vi-IV
A ordem dos acordes altera completamente o clima emocional. Começar com I e ir direto para o vi (menor) no segundo acorde cria uma sensação imediata de nostalgia e saudade que define o som dos anos 50. O IV e V no final empurram a progressão de volta ao I com um sentimento de resolução esperançosa.
vi-IV-I-V: a versão emotiva
Reordene os mesmos quatro acordes começando pelo vi (menor) e o clima muda drasticamente. A progressão ganha um tom mais introspectivo e emocional.
Exemplos
- "Zombie" (The Cranberries) — Em - C - G - D
- "Numb" (Linkin Park)
- "Save Tonight" (Eagle Eye Cherry)
- "Self Esteem" (The Offspring)
- "Africa" (Toto) — usa essa progressão em partes da música
Começar no acorde menor dá à progressão um ponto de partida mais sombrio. O ouvinte não sente "resolução" no primeiro acorde — sente tensão, inquietação. O I quando chega soa como um alívio temporário.
Nota
Perceba que I-V-vi-IV, I-vi-IV-V e vi-IV-I-V usam exatamente os mesmos quatro acordes, apenas em ordens diferentes. São como anagramas harmônicos. Isso mostra como a ordem dos acordes é tão importante quanto os acordes em si.
ii-V-I: a espinha dorsal do jazz
Se as progressões anteriores dominam o pop e o rock, ii-V-I é o equivalente no jazz. É a progressão mais fundamental do gênero, presente em praticamente todo standard de jazz já escrito.
Como funciona
- ii (segundo grau, menor): cria movimento
- V (quinto grau, dominante): máxima tensão
- I (primeiro grau, maior): resolução
Em Dó maior: Dm7 - G7 - Cmaj7
A diferença do jazz é que os acordes ganham extensões (sétimas, nonas, décimas primeiras, décimas terceiras) que enriquecem a harmonia e criam muito mais possibilidades melódicas para improvisação.
Onde aparece
- "Autumn Leaves" — um dos standards mais tocados, essencialmente uma série de ii-V-I em diferentes tons
- "All the Things You Are" — ii-V-I em várias tonalidades encadeadas
- "Fly Me to the Moon" — estrutura baseada em ii-V-I
- "Blue Bossa" — mistura ii-V-I menor e maior
Para guitarristas
Se você está explorando jazz na guitarra, dominar as voicings de ii-V-I é prioridade. Comece com voicings nas cordas 3-4-5 e 4-5-6 usando posições de acorde com fundamental na 5ª e 6ª cordas. O campo harmônico te dá a base teórica para entender de onde vem cada acorde.
I-bVII-IV: o rock modal
Essa progressão usa um acorde que não pertence ao campo harmônico maior convencional: o bVII (sétimo grau abaixado). É um empréstimo do modo mixolídio e dá ao som aquele caráter "rock" inconfundível.
Exemplos
- "Sweet Child O' Mine" (Guns N' Roses) — partes da música
- "Sympathy for the Devil" (Rolling Stones)
- "Hey Jude" (Beatles) — no refrão "na na na"
- "Born to Be Wild" (Steppenwolf)
- "All Along the Watchtower" (Hendrix/Dylan)
Na guitarra
Em Lá (A): A - G - D (o G é o bVII — a nota Sol não pertence ao campo harmônico de Lá maior, mas soa perfeitamente no contexto rock)
Esse uso de acordes "emprestados" de outros modos é chamado de mistura modal, e é extremamente comum no rock. Se um dia você ouviu uma progressão de rock que soa "diferente" mas não sabe por quê, provavelmente tem um acorde modal no meio.
I-IV-vi-V e outras variações
Os mesmos quatro acordes (I, IV, V e vi) podem ser reorganizados em inúmeras ordens, cada uma com um clima diferente:
- I-IV-vi-V: "Hey Ya!" (Outkast) — estabilidade → movimento → escuridão → tensão
- IV-I-V-vi: "Apologize" (OneRepublic) — começa no IV, que cria uma sensação de "já estar no meio da história"
- V-vi-IV-I: "Boulevard of Broken Dreams" (Green Day) — começo tenso que gradualmente resolve
- IV-V-vi-I: comum em J-pop e K-pop
Cada reordenação muda o ponto de partida emocional da progressão. Com quatro acordes e quatro posições, existem 24 permutações possíveis — e a maioria delas já foi usada em alguma música de sucesso.
Como usar progressões na prática
Para compor
Escolha uma progressão que combine com o clima que você quer: - Alegre e energético: I-IV-V, I-V-vi-IV - Nostálgico e suave: I-vi-IV-V - Emotivo e introspectivo: vi-IV-I-V, I-V-vi-IV em tom menor - Sofisticado e jazzístico: ii-V-I, I-vi-ii-V - Rock pesado: I-bVII-IV, I-bIII-bVII
Depois, personalize: mude o ritmo, adicione suspensões (sus2, sus4), troque acordes maiores por menores para surpresa, adicione sétimas para sofisticação. A progressão é o esqueleto — o resto é com você.
Para improvisar
Saber quais progressões estão rolando por baixo é essencial para improvisar bem. Se a música é I-IV-V em Lá, você sabe que a pentatônica de Lá (menor ou maior) funciona por cima. Se é ii-V-I em Dó, cada acorde pode receber sua própria escala (Dórico em Dm7, Mixolídio em G7, Jônico em Cmaj7).
Com um [PRODUCT:looper] como o M-VAVE, gravar progressões e improvisar por cima é um exercício diário poderoso. Grave 4 compassos de I-V-vi-IV e passe 10 minutos explorando melodias. Mude de tom. Mude de progressão. Em poucas semanas, seus ouvidos vão reconhecer essas sequências em qualquer música que ouvir.
Para análise musical
Da próxima vez que ouvir uma música que goste, tente identificar a progressão. Pegue a guitarra ou use um app como Chordify para encontrar os acordes. Depois, traduza para números romanos. Você vai começar a perceber padrões: "ah, essa música usa I-V-vi-IV, igual aquela outra". Esse exercício treina seu ouvido harmônico como pouca coisa no mundo.
Dica
Comece analisando suas 10 músicas favoritas. Anote os acordes e traduza para números romanos. Aposte que pelo menos 5 delas usam uma das progressões deste artigo. Essa consciência harmônica vai transformar a forma como você ouve e toca música.
Além das progressões básicas
As progressões que cobrimos aqui representam a fundação. A música real vai muito além:
- Modulação: mudar de tom no meio da música (aquele "subidão" no último refrão é quase sempre uma modulação meio-tom acima)
- Acordes cromáticos: acordes que não pertencem a nenhum campo harmônico da tonalidade — usados de passagem para criar cor
- Dominantes secundários: usar V7 de qualquer grau (não apenas do I) para criar pontos de tensão extras
- Substituição tritonal: trocar um acorde dominante por outro a distância de trítono — muito usado no jazz
- Harmonia modal: usar progressões derivadas de modos, não da escala maior — Radiohead, Björk e muito post-rock usam essa abordagem
Cada um desses conceitos abre novas portas. Mas as progressões básicas são o alicerce sobre o qual todo o resto se constrói. Domine I-IV-V, I-V-vi-IV e ii-V-I, e você tem ferramentas para tocar, compor e improvisar em 90% das situações musicais que vai encontrar.
Se a relação entre intervalos e acordes ainda não está clara, vale revisitar o conceito. Entender por que o V cria tensão (por causa do trítono entre a terça e a sétima do acorde dominante) e por que o IV soa como "saída" (por causa do intervalo de quarta justa em relação à tônica) dá uma camada de compreensão que vai além de decorar fórmulas.
O [PRODUCT:cube-baby] pode ser um aliado nesse estudo — com acesso a diferentes timbres, você consegue experimentar como cada progressão soa em som limpo, com crunch ou com distorção. O caráter harmônico muda surpreendentemente de um timbre para outro, e entender essas nuances enriquece sua musicalidade.