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Teoria Musical

Campo Harmônico: Entenda de Uma Vez Por Todas

8 de dezembro de 202510 min de leitura
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O que é campo harmônico

Você já reparou que certas sequências de acordes simplesmente "funcionam"? Que C, G, Am e F soam naturais juntos, mas se você jogasse um Eb no meio ia parecer estranho? Isso acontece porque esses acordes pertencem ao mesmo campo harmônico.

Campo harmônico é o conjunto de acordes formados a partir das notas de uma escala. Cada nota da escala vira a fundamental de um acorde, e a escala determina quais serão esses acordes — maiores, menores ou diminutos. Não existe mágica nem gosto pessoal aqui: é matemática musical pura.

Quando você entende o campo harmônico, para de decorar músicas acorde por acorde e começa a enxergar padrões. Percebe que a maioria das músicas pop usa as mesmas funções harmônicas, só que em tonalidades diferentes. Isso muda completamente sua forma de tocar, compor e improvisar.

Campo harmônico maior

Vamos construir o campo harmônico de Dó maior passo a passo. A escala de Dó maior tem estas notas:

C - D - E - F - G - A - B

Para formar os acordes, empilhamos terças a partir de cada nota (ou seja, pulamos uma nota da escala a cada vez):

  1. C (Dó - Mi - Sol) = C maior (I)
  2. D (Ré - Fá - Lá) = Dm menor (ii)
  3. E (Mi - Sol - Si) = Em menor (iii)
  4. F (Fá - Lá - Dó) = F maior (IV)
  5. G (Sol - Si - Ré) = G maior (V)
  6. A (Lá - Dó - Mi) = Am menor (vi)
  7. B (Si - Ré - Fá) = Bº diminuto (viiº)

A sequência de tipos é sempre a mesma para qualquer campo harmônico maior:

Maior - menor - menor - Maior - Maior - menor - diminuto

Ou em algarismos romanos: I - ii - iii - IV - V - vi - viiº

Dica

Decore essa sequência (M-m-m-M-M-m-dim). Com ela, você consegue montar o campo harmônico de qualquer tonalidade maior em segundos.

Exemplos em outras tonalidades

Campo harmônico de Sol maior: G - Am - Bm - C - D - Em - F#º

Campo harmônico de Ré maior: D - Em - F#m - G - A - Bm - C#º

Campo harmônico de Mi maior: E - F#m - G#m - A - B - C#m - D#º

Perceba o padrão: muda a tonalidade, mas a estrutura permanece idêntica.

Funções harmônicas: Tônica, Subdominante e Dominante

Os sete acordes do campo harmônico não têm todos a mesma "função" dentro da música. Eles se dividem em três grupos que determinam a sensação que provocam:

Tônica (T) — Repouso

Acordes que soam como "casa", como resolução. Quando a música chega num acorde de tônica, você sente que ela descansou.

  • I (grau 1) — tônica principal
  • iii (grau 3) — tônica substituta
  • vi (grau 6) — tônica substituta (muito usada como relativa menor)

Subdominante (SD) — Movimento

Acordes que criam uma sensação de movimento, de preparação. Nem repouso, nem tensão máxima — um meio-termo.

  • IV (grau 4) — subdominante principal
  • ii (grau 2) — subdominante substituto

Dominante (D) — Tensão

Acordes que pedem resolução. Quando você ouve um acorde dominante, seu ouvido quer ouvir a tônica em seguida.

  • V (grau 5) — dominante principal
  • viiº (grau 7) — dominante substituto

Nota

O movimento básico de toda harmonia tonal é: Tônica → Subdominante → Dominante → Tônica. Essa sequência gera a sensação de "ida e volta" que nosso ouvido reconhece intuitivamente.

O ciclo harmônico na prática

A progressão T → SD → D → T é a espinha dorsal de milhares de músicas. Veja como funciona em Dó maior:

C → F → G → C (I → IV → V → I)

Essa é a progressão mais simples e eficiente do mundo. O C é o repouso, o F cria movimento, o G cria tensão, e voltamos ao C resolvendo tudo.

Agora, usando substituições:

C → Dm → G → Am (I → ii → V → vi)

O Dm substitui o F (ambos são subdominantes), e o Am substitui o C (ambos são tônicas). Soa diferente, mas a função harmônica é a mesma.

Campo harmônico menor

O campo harmônico menor natural segue a mesma lógica, mas usando a escala menor natural. Vamos construir o de Lá menor:

A - B - C - D - E - F - G

Os acordes:

  1. Am menor (i)
  2. diminuto (iiº)
  3. C maior (III)
  4. Dm menor (iv)
  5. Em menor (v)
  6. F maior (VI)
  7. G maior (VII)

A sequência: menor - diminuto - Maior - menor - menor - Maior - Maior

Menor harmônico: o V com força

Na prática, muitos compositores usam a escala menor harmônica em vez da natural para o quinto grau. A diferença é que o 7º grau da escala é elevado em meio tom, transformando o acorde do V grau em maior (com possibilidade de dominante).

Em Lá menor harmônico, o Em vira E maior (ou E7). Isso cria uma tensão muito mais forte que resolve no Am, dando à música em tom menor aquela sensação dramática de "ida e volta" que o campo menor natural não oferece tão claramente.

Progressões comuns e suas funções

Agora que você sabe a teoria, vamos ver como ela aparece em músicas reais:

I - V - vi - IV (Pop universal)

Em Dó: C - G - Am - F Funções: T - D - T - SD

Começa em repouso, vai para tensão, resolve na relativa menor (que ainda funciona como tônica), e vai para a subdominante, gerando um ciclo que nunca cansa. Usada em centenas de hits mundiais.

vi - IV - I - V (Pop dramático)

Em Dó: Am - F - C - G Funções: T - SD - T - D

A mesma progressão anterior, mas começando pelo vi. O Am dá uma abertura mais sombria, e o ciclo ganha um caráter mais emocional.

ii - V - I (Jazz/Bossa)

Em Dó: Dm7 - G7 - Cmaj7 Funções: SD - D - T

A progressão mais importante do jazz. Subdominante prepara, dominante cria tensão, tônica resolve. Tom Jobim construiu boa parte da bossa nova sobre variações dessa cadência.

I - vi - IV - V (Anos 50/Doo-wop)

Em Dó: C - Am - F - G Funções: T - T - SD - D

O ciclo clássico dos anos 50, usado em "Stand By Me", "Every Breath You Take" e muitas outras.

Dica

Quando for aprender uma música nova, tente identificar os graus dos acordes em vez de decorar os nomes. Se a música é em Sol e tem G, C e D, você sabe que é I-IV-V. Quando mudar de tonalidade, a lógica continua a mesma.

Aplicação prática na guitarra

Mapeando o campo harmônico no braço

Uma forma poderosa de internalizar o campo harmônico é tocar todos os acordes de uma tonalidade em sequência, subindo pelo braço:

Em Dó maior, usando formatos com pestana: - C (8ª casa, formato E) → Dm (10ª casa, formato E) → Em (12ª casa, formato E) → F (1ª casa, formato E) → G (3ª casa, formato E) → Am (5ª casa, formato E) → Bº (7ª casa)

Fazer isso desenvolve a consciência de onde cada acorde do campo está no braço — e essa consciência é o que separa um guitarrista que toca músicas de um que entende música.

Criando progressões próprias

Com o campo harmônico, você pode compor suas próprias progressões. Algumas regras práticas:

  1. Comece e termine na tônica para dar sensação de resolução
  2. Use o V antes do I para criar cadências fortes
  3. O IV prepara bem o V — a sequência IV-V-I é uma das mais satisfatórias
  4. Substitua livremente dentro das mesmas funções
  5. O vi é coringa — funciona quase em qualquer ponto da progressão

Para praticar composição e improvisação, um equipamento versátil como o [PRODUCT:cube-baby] permite que você grave progressões de acordes e toque por cima, experimentando melodias e solos. Ter esse tipo de ferramenta acessível faz toda a diferença no aprendizado.

Empréstimo modal: quando as regras são quebradas

Nem toda música fica dentro do campo harmônico. Compositores frequentemente "emprestam" acordes de outros modos para criar cores diferentes. Isso se chama empréstimo modal.

Exemplos comuns em Dó maior:

  • Fm (iv menor, emprestado do modo menor) — cria uma surpresa melancólica
  • Bb (bVII, emprestado do modo mixolídio) — som de rock clássico
  • Ab (bVI, emprestado do modo menor) — dramático e cinematográfico
  • Eb (bIII, emprestado do modo menor) — escuro e poderoso

Quando você ouve uma progressão como C - Bb - F - C em uma música de rock, aquele Bb é um empréstimo modal. Não pertence ao campo de Dó maior, mas funciona porque vem de outro modo da mesma tônica.

Nota

Empréstimo modal é um tema avançado. Domine o campo harmônico diatônico (sem empréstimos) antes de se aventurar aqui. Entenda a regra antes de quebrá-la.

Resumo prático

O campo harmônico é a chave para entender por que as músicas soam como soam. Com ele, você:

  • Sabe quais acordes combinam em cada tonalidade
  • Entende a função de cada acorde (tensão, repouso, movimento)
  • Consegue transpor músicas para qualquer tom
  • Pode criar suas próprias progressões com segurança
  • Analisa músicas de ouvido com muito mais facilidade

O próximo passo natural é entender os intervalos musicais que formam esses acordes, e praticar as escalas que geram cada campo harmônico. Teoria e prática andando juntas — é assim que se constrói musicalidade de verdade.

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