O que são intervalos musicais
Intervalo é a distância entre duas notas. Parece simples — e é. Mas essa simplicidade esconde um conceito que é a base de absolutamente tudo na música: escalas, acordes, melodias, harmonia. Tudo se resume a intervalos.
Quando você toca duas notas e sente que soam "felizes" juntas, isso é o intervalo de terça maior. Quando soam "tensas", pode ser uma segunda menor. Quando soam "vazias e poderosas", provavelmente é uma quinta justa. Cada intervalo tem uma personalidade sonora única, e conhecê-los transforma a forma como você ouve e toca música.
Na guitarra, intervalos são especialmente visuais. Como o instrumento é organizado em semitons (cada casa = um semitom), a distância entre duas notas pode ser medida literalmente contando casas. E os formatos dos intervalos no braço se repetem em qualquer posição, facilitando a memorização.
Os intervalos dentro de uma oitava
Partindo de uma nota qualquer, temos 12 intervalos possíveis até a próxima oitava:
- Uníssono (0 semitons) — A mesma nota. Duas guitarras tocando a mesma nota em uníssono criam um efeito de reforço e espessura.
- Segunda menor (1 semitom) — Som tenso, dissonante. Pense na trilha de "Tubarão" (duas notas alternando em segunda menor). Na guitarra, é uma casa de distância na mesma corda.
- Segunda maior (2 semitons) — Som de "passagem". Menos tenso que a segunda menor, mas ainda sem repouso. A distância entre Dó e Ré, por exemplo.
- Terça menor (3 semitons) — O intervalo que define acordes menores. Som melancólico, sombrio. A diferença entre um acorde maior e menor é esta: a terça.
- Terça maior (4 semitons) — O intervalo que define acordes maiores. Som alegre, aberto, resolvido. Troque a terça menor por maior e o acorde muda de "triste" para "feliz".
- Quarta justa (5 semitons) — Som neutro, suspensivo. É o intervalo entre cordas adjacentes da guitarra (exceto entre a 3ª e 2ª corda). Muito usado em riffs de rock.
- Trítono / Quarta aumentada / Quinta diminuta (6 semitons) — O intervalo mais instável. Na Idade Média era chamado de "diabolus in musica". Som tenso que pede resolução. É a base do acorde dominante e aparece em riffs de metal e blues.
- Quinta justa (7 semitons) — O intervalo mais estável depois do uníssono e da oitava. Som poderoso e vazio. Os power chords são feitos de quintas justas. É o intervalo mais importante do rock.
- Sexta menor (8 semitons) — Som dramático, cinematográfico. Pense no tema de "Love Story" ou no início de "The Entertainer".
- Sexta maior (9 semitons) — Som suave e doce. O intervalo do início de "My Way" (Frank Sinatra) e de "Lá vem o sol" (Beatles — "Here Comes the Sun").
- Sétima menor (10 semitons) — Som de blues e jazz. É o intervalo que transforma um acorde maior em dominante (acorde com sétima). Essencial no blues.
- Sétima maior (11 semitons) — Som sofisticado, quase dissonante. O acorde com sétima maior (Cmaj7, por exemplo) tem esse intervalo. Muito usado em jazz e bossa nova.
- Oitava (12 semitons) — A mesma nota, uma oitava acima. Som de reforço total.
Dica
Associe cada intervalo a uma música que você conhece. A terça maior é o início de "Parabéns pra Você". A quinta justa é o início de "Star Wars". Essas associações vão fixar o som de cada intervalo na sua memória.
Encontrando intervalos no braço da guitarra
A guitarra tem formatos visuais para cada intervalo que se repetem em qualquer posição. Aqui estão os mais importantes, sempre partindo de uma nota na 6ª ou 5ª corda:
Na mesma corda - 1 casa acima = segunda menor - 2 casas = segunda maior - 3 casas = terça menor - 4 casas = terça maior - 5 casas = quarta justa - 7 casas = quinta justa
Entre cordas adjacentes (exceto 3ª→2ª) - Mesma casa, corda de baixo = quarta justa - Uma casa acima na corda de cima = terça maior - Mesma casa na corda de cima, mais uma casa para trás = terça menor
O caso especial da 3ª para 2ª corda A afinação padrão da guitarra tem um intervalo de terça maior entre a 3ª e a 2ª corda (em vez de quarta justa entre as outras). Isso significa que todos os formatos que cruzam essas duas cordas são deslocados uma casa para frente.
Nota
Esse deslocamento entre a 3ª e 2ª corda é o motivo pelo qual os shapes de acordes e escalas mudam de forma nessa região. Não é um bug — é uma feature da afinação padrão que facilita tocar acordes abertos.
Como os intervalos soam: treinamento auditivo
Reconhecer intervalos de ouvido é uma habilidade que todo músico deveria desenvolver. Não precisa ter "ouvido absoluto" — o que você precisa é de ouvido relativo, a capacidade de identificar a distância entre duas notas.
Método das músicas de referência
Para cada intervalo, memorize o início de uma música conhecida:
- Segunda menor (asc.): tema de "Tubarão"
- Segunda maior (asc.): "Parabéns pra Você" (pa-ra-béns)
- Terça menor (asc.): "Smoke on the Water" (Deep Purple)
- Terça maior (asc.): "Oh When the Saints" / "Parabéns" (pa-ra-BÉNS pra vo-CÊ)
- Quarta justa (asc.): "Marcha Nupcial" (casamento)
- Trítono (asc.): "The Simpsons" (tema)
- Quinta justa (asc.): "Star Wars" (tema principal)
- Sexta maior (asc.): "Lá Vem o Sol" (Here Comes the Sun)
- Sétima menor (asc.): "Can't Stop" (Red Hot Chili Peppers)
- Oitava (asc.): "Somewhere Over the Rainbow"
Exercício prático de ear training
- Toque uma nota aleatória na guitarra
- Cante o intervalo mentalmente (use a música de referência)
- Toque a nota que você acha que é o intervalo correto
- Confira contando os semitons
Faça isso 5 minutos por dia. Em poucas semanas, seu ouvido vai reconhecer os intervalos básicos automaticamente.
Intervalos na construção de acordes
Acordes são notas empilhadas em intervalos de terça. Entender isso desmistifica completamente a formação de acordes:
Acorde maior Tônica + terça maior + quinta justa (0 + 4 + 7 semitons)
Acorde menor Tônica + terça menor + quinta justa (0 + 3 + 7 semitons)
Acorde diminuto Tônica + terça menor + quinta diminuta (0 + 3 + 6 semitons)
Acorde aumentado Tônica + terça maior + quinta aumentada (0 + 4 + 8 semitons)
Acorde com sétima (dominante) Tônica + terça maior + quinta justa + sétima menor (0 + 4 + 7 + 10)
Perceba: a única diferença entre maior e menor é a terça. Um semitom muda completamente o caráter do acorde. Isso mostra o poder dos intervalos — pequenas mudanças geram grandes diferenças sonoras.
Dica
Na guitarra, você pode transformar qualquer acorde maior em menor (e vice-versa) encontrando a terça e movendo-a um semitom. Experimente com os acordes abertos que você já conhece.
Intervalos na improvisação e no solo
Quando você improvisa, cada nota que toca sobre um acorde cria um intervalo em relação à fundamental do acorde. Esse intervalo determina a "cor" que aquela nota adiciona:
- Tônica sobre o acorde: som de resolução total
- Terça sobre o acorde: define se o som é maior ou menor
- Quinta sobre o acorde: estabilidade, poder
- Sétima sobre o acorde: tensão sofisticada
- Nona (segunda oitava acima): cor de jazz, abertura
- Blue note (b5): tensão de blues
Guitarristas avançados pensam em intervalos quando improvisam. Em vez de "estou na pentatônica menor", pensam "quero resolver na terça maior sobre esse acorde maior para criar um contraste". Esse nível de consciência é o que separa tocar notas de fazer música.
Exercícios práticos na guitarra
Exercício 1: Intervalos na mesma corda Escolha uma corda. Toque uma nota e depois toque cada intervalo subindo: segunda menor, segunda maior, terça menor, e assim por diante. Diga o nome do intervalo em voz alta.
Exercício 2: Intervalos em cordas diferentes Toque uma nota na 6ª corda. Encontre a terça maior na 5ª corda. Depois a quinta justa. Depois a oitava. Mapeie os formatos visuais.
Exercício 3: Harmonizando uma melodia Toque uma melodia simples (pode ser "Parabéns" ou qualquer outra). Agora toque a mesma melodia adicionando uma terça abaixo de cada nota. Depois tente com uma sexta. Você está harmonizando — uma técnica usada por guitarristas como Brian May (Queen) e os Allman Brothers.
Exercício 4: Identificação no dia a dia Quando ouvir música — qualquer música —, tente identificar os intervalos das melodias. No ônibus, no mercado, na TV. Quanto mais você treinar o ouvido no dia a dia, mais rápido vai desenvolver essa habilidade.
Com um [PRODUCT:cube-baby], você pode praticar esses exercícios com diferentes timbres e efeitos, tornando o estudo mais variado e interessante.
Conectando intervalos com o resto da teoria
Os intervalos são a linguagem que conecta tudo:
- Escalas são sequências de intervalos específicos
- Acordes são intervalos empilhados
- O campo harmônico é o resultado de harmonizar cada nota da escala usando intervalos de terça
Dominar intervalos é como aprender o alfabeto depois de já saber falar. Você passa a entender a estrutura por trás daquilo que seu ouvido já reconhece intuitivamente. E esse entendimento abre portas que a prática mecânica sozinha nunca abriria.