Cabos São Ótimos — Até Não Serem
Cabos de guitarra funcionam perfeitamente bem. Sinal analógico puro, sem latência, sem bateria pra acabar no meio do show. Então por que alguém trocaria um cabo por um sistema wireless?
Porque cabos prendem você a um raio de 3 a 6 metros do amplificador. E quem já experimentou liberdade no palco sabe: não tem volta. Andar pelo palco, interagir com o baterista, ir até a borda e tocar pra plateia — tudo isso muda quando não tem um cabo limitando seus movimentos.
Mas wireless pra guitarra carrega dúvidas legítimas: atrasa o sinal? Muda o timbre? A bateria aguenta um show inteiro? Vamos responder tudo com dados, não com achismo.
Como Funciona um Sistema Wireless
O princípio é simples: um transmissor conectado à guitarra converte o sinal de áudio em sinal de rádio, envia pelo ar, e um receptor (conectado ao amp ou pedalboard) converte de volta em áudio.
Componentes
- Transmissor (TX): plugado no jack da guitarra. Pode ser formato de plug (direto no jack) ou bodypack (caixinha presa à correia com cabo curto até o jack).
- Receptor (RX): fica na pedalboard ou no amp. Geralmente tem saída P10 padrão.
- Frequência de operação: UHF (banda tradicional), 2.4GHz ou 5.8GHz (digital moderno).
Digital vs Analógico
Sistemas analógicos (UHF): usam companding — comprimem o sinal antes de transmitir e expandem no receptor. Foram o padrão por décadas (Sennheiser, Shure). Vantagem: alcance maior (até 100m). Desvantagem: companding pode afetar dinâmica e adicionar "artefatos" sonoros.
Sistemas digitais (2.4GHz/5.8GHz): convertem o áudio em dados digitais, transmitem e reconvertem. Vantagem: som mais fiel ao original, sem artefatos de companding. Desvantagem: alcance geralmente menor (15-30m) e possibilidade de interferência em ambientes com muito Wi-Fi.
A maioria dos sistemas modernos é digital. A tecnologia evoluiu ao ponto de ser praticamente indistinguível de um cabo pra 99% dos ouvidos em contexto de show.
Latência: O Fantasma que Assombra
Latência é o tempo entre tocar a corda e o som sair pelo amp. Com cabo, a latência é essencialmente zero (a velocidade da eletricidade no cobre é quase instantânea). Com wireless, existe um tempo de processamento — conversão AD, transmissão, conversão DA.
Os números
- Sistemas digitais modernos: 2-5 milissegundos (ms) de latência
- Limiar de percepção humana: acima de ~10ms a maioria das pessoas começa a sentir atraso
- Referência: ficar a 3 metros do amplificador adiciona ~9ms de latência acústica (velocidade do som no ar)
Ou seja: a latência de um wireless digital bom é menor do que a "latência natural" de estar a poucos metros do amp. Na prática, é imperceptível. Se alguém diz que "sente" 3ms de latência, provavelmente está sentindo outra coisa (mudança de timbre, placebo, ou um sistema de baixa qualidade com latência real maior).
Dica
Se a latência te preocupa, faça um teste cego: peça alguém pra alternar entre cabo e wireless enquanto você toca de olhos fechados. A maioria dos guitarristas não consegue distinguir consistentemente.
Impacto no Timbre: Mito vs Realidade
A preocupação com timbre é legítima, mas precisa de contexto.
O que muda
Com cabo: o cabo de guitarra é um filtro passa-baixas. Cabos longos perdem agudos. Um cabo de 6m tem capacitância significativa que "arredonda" o som. Guitarristas se acostumam com isso e passam a considerar esse som "o timbre da guitarra".
Com wireless: o sinal é digitalizado na guitarra e reconstruído no receptor. Não há perda por capacitância de cabo. O resultado frequentemente é um som mais brilhante e presente — porque o wireless transmite o sinal completo, sem a atenuação de agudos do cabo.
Isso é bom ou ruim?
Depende. Alguns guitarristas adoram o brilho extra — sentem que o som fica mais "vivo" e articulado. Outros estranham — acham o som "duro" ou "frio" porque estão acostumados com a coloração do cabo.
A solução é simples: muitos sistemas wireless modernos (incluindo o [PRODUCT:chocolate-plus]) incluem um "cable tone" ou simulação de capacitância que reproduz a resposta de frequência de um cabo de comprimento específico. Você liga o wireless mas o timbre se comporta como se tivesse um cabo de 5m conectado.
Sistemas profissionais como Line 6, Shure e Boss oferecem essa opção. Se timbre é prioridade, procure um sistema com essa função.
Bateria e Autonomia
A pergunta prática que todo guitarrista faz: "Aguenta um show?" A resposta: depende do sistema.
Tempos típicos de bateria
- Sistemas de entrada: 4-6 horas (geralmente recarregáveis via USB)
- Sistemas intermediários: 6-10 horas
- Sistemas profissionais: 8-12+ horas, com indicação precisa de carga no receptor
Dicas de gestão de bateria
- Carregue antes de cada ensaio/show. Parece óbvio, mas a maior causa de "wireless que morreu no show" é falta de carga.
- Desligue quando não está tocando. Intervalo, passagem de som que vai demorar — desligue o transmissor.
- Tenha um cabo de backup. Sempre. Mesmo com bateria cheia. Sistemas eletrônicos podem falhar de formas imprevisíveis. Um cabo de 5m enrolado na bag da guitarra é seguro de vida.
- Verifique o indicador de bateria no receptor antes de subir no palco. A maioria dos sistemas mostra o nível de carga do transmissor no display do receptor.
Nota
Nunca troque de bateria/pilha com o sistema ligado e a guitarra conectada ao amp. O corte e reconexão do sinal pode gerar um estalo alto que, num sistema de PA, prejudica os alto-falantes e os ouvidos do público.
Quando o Wireless Vale a Pena
Vale investir se:
- Você toca ao vivo regularmente. A liberdade de movimento muda a performance. Guitarristas que se movimentam no palco transmitem mais energia, e o wireless possibilita isso.
- Seu palco é grande. Bandas que tocam em palcos médios/grandes perdem mobilidade com cabo. Com wireless, o palco inteiro é seu território.
- Você tropeça em cabos. Não é piada — cabos no chão de palco são risco real. Um tropeço pode puxar a guitarra, derrubar o amp ou causar acidente. Wireless elimina esse risco.
- Faz gigs frequentes com montagem/desmontagem rápida. Menos cabos = setup mais rápido. Menos coisa pra dar errado na correria antes do show.
Pode esperar se:
- Toca só em casa ou estúdio. Num quarto ou home studio, cabo de 3m é mais prático e confiável. Sem palco, sem necessidade de mobilidade.
- Seu orçamento é muito apertado. Wireless barato demais pode trazer mais problemas que soluções. Se o orçamento só permite os modelos mais básicos, um bom cabo é investimento melhor.
- Toca em ambientes com muita interferência Wi-Fi. Espaços com dezenas de redes Wi-Fi, Bluetooth em massa e outros equipamentos sem fio podem causar interferência em sistemas 2.4GHz. Ambientes assim pedem UHF ou sistemas 5.8GHz.
Dicas de Uso no Palco
Faça a passagem de som com o wireless. Não teste só com cabo e troque pro wireless na hora do show. Caminhe pelo palco durante a passagem pra verificar se há pontos mortos (áreas onde o sinal enfraquece).
Posicione o receptor com linha de visão. Obstáculos metálicos entre transmissor e receptor (amplificadores, estruturas de palco) podem bloquear ou enfraquecer o sinal. Coloque o receptor num ponto com visão desobstruída do palco.
Cuidado com múltiplos sistemas simultâneos. Se a banda tem dois guitarristas e um baixista usando wireless, os três sistemas precisam operar em canais diferentes. Verifique e configure os canais antes do show.
Desative Wi-Fi do celular. Se o wireless opera em 2.4GHz e você tem o celular no bolso com Wi-Fi ligado, pode haver interferência. Modo avião ou Wi-Fi desligado resolve.
Digital, Analógico ou Cabo: Tabela Comparativa
Cabo: - Latência: zero - Timbre: referência (com coloração de cabo) - Alcance: comprimento do cabo - Bateria: não precisa - Custo: baixo - Mobilidade: limitada
Wireless digital: - Latência: 2-5ms (imperceptível) - Timbre: fiel ao original, opção de cable tone - Alcance: 15-30m típico - Bateria: 4-12 horas - Custo: médio a alto - Mobilidade: total
Wireless analógico: - Latência: ~1-3ms - Timbre: leve coloração por companding - Alcance: até 100m - Bateria: 6-10 horas - Custo: alto (profissional) - Mobilidade: total
O Veredicto
Sistema wireless pra guitarra vale a pena pra quem toca ao vivo e quer liberdade no palco. A tecnologia atual eliminou os problemas que atormentavam os primeiros sistemas — latência alta, perda de timbre, interferência constante. Os sistemas modernos são confiáveis, soam bem e duram um show inteiro com folga.
Pra quem ensaia em casa ou grava em estúdio, cabo continua sendo rei: simples, confiável, sem bateria pra gerenciar.
A melhor abordagem é pragmática: compre um cabo bom pra ter como backup e principal em casa. Quando começar a tocar ao vivo com frequência, adicione um wireless ao setup. Use os dois conforme o contexto — não precisa escolher um e abandonar o outro. O objetivo é fazer música sem se preocupar com equipamento, e tanto cabo quanto wireless são meios pra esse fim.