Sua pedalboard começa com planejamento
Montar uma pedalboard é um dos momentos mais empolgantes na vida de qualquer guitarrista. Aquela sensação de ter todos os seus pedais organizados, prontos para usar com um toque do pé — sem fios emaranhados no chão, sem pedais escorregando durante o show. Mas antes de sair comprando tudo, vale parar uns minutos para planejar.
A diferença entre uma pedalboard que funciona bem e uma que vive dando problema está quase sempre no planejamento. Guitarristas experientes já montaram e desmontaram dezenas de boards ao longo dos anos, e a lição é sempre a mesma: pense antes de montar.
Escolhendo o tamanho da board
O primeiro passo é decidir o tamanho da base onde seus pedais vão ficar. E aqui a regra de ouro é: compre uma board um pouco maior do que você precisa agora. Sempre aparece um pedal novo que você quer adicionar, e não ter espaço é frustrante.
Tamanhos comuns
- Nano/Mini (30-40cm): cabe de 3 a 5 pedais compactos. Ideal para quem usa poucos efeitos ou quer algo ultra-portátil
- Pequena (45-55cm): acomoda de 5 a 8 pedais. O tamanho mais popular para iniciantes e intermediários
- Média (60-70cm): espaço para 8 a 12 pedais. Para quem já tem um setup mais elaborado
- Grande (80cm+): 12+ pedais. Territory de profissionais e aficionados por timbre
Board inclinada vs plana
Boards inclinadas (com angulação de 10-20 graus) têm vantagens práticas. Os pedais da fileira de trás ficam mais altos, facilitando o acesso com o pé. Também melhoram a ventilação e permitem fixar a fonte de alimentação por baixo.
Boards planas são mais baratas e versáteis, mas podem dificultar o acesso aos pedais do fundo — especialmente se você usa pedais grandes na fileira da frente.
Dica
Antes de comprar a board, coloque todos os seus pedais no chão e meça o espaço que eles ocupam. Adicione uns 5cm de margem em cada lado para os cabos. Esse é o tamanho mínimo que você precisa.
Alternativas econômicas
Nem todo mundo precisa (ou pode) investir em uma board profissional logo de cara. Alternativas válidas:
- Tábua de madeira cortada sob medida: funciona perfeitamente. Lixe, pinte e aplique velcro
- Prateleira de aço com furos: permite passar cabos por baixo e fixar a fonte embaixo
- Case de plástico reforçado: algumas maletas e cases servem como base
- Board de papelão reforçado: serve para testar o layout antes de investir na definitiva
A fonte de alimentação: o coração da pedalboard
Se tem uma coisa que merece investimento desde o início, é a fonte de alimentação. Uma fonte ruim é a principal causa de ruídos, hum e problemas em pedalboards.
Por que não usar daisy chain?
A famosa "corrente margarida" — um cabo com vários plugs alimentando vários pedais a partir de uma única fonte — funciona... mais ou menos. Quando todos os pedais usam a mesma voltagem e são analógicos simples, pode dar certo. Mas basta adicionar um pedal digital ao circuito para o ruído aparecer.
Pedais digitais geram interferência no circuito de alimentação que se propaga pelos outros pedais conectados na mesma corrente. O resultado: aquele chiado irritante que aparece só quando você liga tudo junto.
Fonte isolada: o investimento que vale a pena
Uma fonte com saídas isoladas fornece alimentação independente para cada pedal. Cada saída é como uma mini-fonte separada, eliminando a interferência entre pedais. O resultado é um setup silencioso e estável.
Na hora de escolher, verifique:
- Número de saídas: conte seus pedais e adicione 1-2 saídas extras para futuras adições
- Voltagem: a maioria dos pedais usa 9V, mas alguns pedem 12V ou 18V. Verifique se a fonte oferece saídas com voltagens diferentes
- Corrente (mA): cada saída precisa fornecer corrente suficiente para o pedal. Pedais digitais costumam consumir mais (200-500mA) do que analógicos (20-100mA)
- Polaridade: o padrão da maioria dos pedais é centro negativo, mas confirme sempre
Nota
Verifique a corrente total que seus pedais consomem (soma de todos os mA) e certifique-se de que a fonte suporta esse valor com folga. Uma fonte trabalhando no limite aquece mais e pode gerar instabilidade.
Para mais detalhes sobre fontes, confira nosso artigo sobre fonte de alimentação para pedais.
Cabos patch: os elos da corrente
Os cabos que conectam um pedal ao outro — chamados de patch cables — são tão importantes quanto os próprios pedais. Um cabo ruim pode adicionar ruído, cortar agudos ou simplesmente parar de funcionar no meio de um show.
Tipos de patch cables
- Cabos prontos com plug reto ou angular: a opção mais prática. Plugs angulados (em L) economizam muito espaço na board
- Cabos soldáveis: você compra o cabo e os plugs separados e monta no tamanho exato. Resultado mais limpo e profissional
- Cabos flat (achatados): ocupam menos espaço entre os pedais. Excelentes para boards compactas
- Cabos sem solda (solderless): sistemas como Evidence Audio e Lava Cable permitem montar cabos sob medida sem soldador. Praticidade máxima
Comprimento importa
Use cabos do comprimento certo — nem mais, nem menos. Cabos muito longos criam excesso de fio na board e podem adicionar ruído e perda de sinal. Cabos muito curtos forçam os conectores e limitam o posicionamento dos pedais.
A dica é medir a distância entre cada par de pedais, adicionar 3-4cm de folga, e cortar nessa medida (se estiver usando cabos soldáveis ou solderless).
Velcro: fixando tudo no lugar
O método mais popular para fixar pedais na board é o velcro adesivo. Um lado (geralmente o "loop", a parte mais macia) vai na board, e o outro (o "hook", a parte áspera) vai no fundo do pedal.
Dicas para aplicar velcro corretamente
- Limpe as superfícies com álcool isopropílico antes de colar. Gordura e poeira impedem a aderência
- Use velcro industrial (3M Dual Lock ou similar). Velcro comum de papelaria não aguenta o peso dos pedais
- Aplique no pedal em tiras — não cubra o fundo inteiro. Duas tiras paralelas dão aderência suficiente e facilitam a remoção
- Pressione firme e espere 24 horas antes de usar. O adesivo precisa de tempo para curar completamente
- Cuidado com pedais de borracha: alguns pedais têm base emborrachada que dificulta a aderência do velcro. Remova a borracha ou use fita dupla-face industrial como base
Alternativas ao velcro
- Zip ties (abraçadeiras): funcionam bem em boards com furos, como Pedaltrain
- Temple Audio plates: sistema magnético compatível com boards Temple
- Dual Lock 3M: versão mais forte que o velcro convencional, com encaixe mecânico
- Parafusos: fixação permanente e ultra-segura, mas zero flexibilidade
Organizando o layout
Agora vem a parte divertida: posicionar os pedais na board. O layout ideal equilibra três coisas: ordem do sinal, acesso fácil aos controles e economia de espaço.
Regra geral de posicionamento
- Fileira da frente (mais próxima dos seus pés): pedais que você pisa com mais frequência — drive, boost, afinador
- Fileira de trás (mais longe dos pés): pedais que ficam ligados a maior parte do tempo ou que você ajusta raramente — compressor, delay, reverb
- Laterais: pedais de utilidade como noise gate ou buffer
A ordem dos pedais na cadeia de sinal é fundamental para um bom timbre, mas o posicionamento físico na board não precisa seguir exatamente a ordem do sinal. Use cabos mais longos se necessário para manter um pedal frequentemente usado na posição mais acessível.
Onde colocar a fonte
Se sua board tem espaço embaixo (boards elevadas como Pedaltrain), a fonte vai ali — parafusada ou presa com velcro. Isso economiza espaço em cima para os pedais.
Em boards planas, a fonte geralmente fica em um canto, na parte de trás. Mantenha os cabos de força organizados e separados dos cabos de áudio para minimizar interferência.
O papel do multi-efeitos compacto
Uma alternativa que muitos iniciantes ignoram é usar um multi-efeitos compacto como base da pedalboard. O [PRODUCT:cube-baby], por exemplo, reúne preamp, IR cabinet, delay, reverb, chorus e afinador em um único pedal compacto.
Com ele, você pode:
- Começar com poucos pedais: o multi-efeitos cuida da maioria dos sons, e você adiciona pedais individuais só para efeitos específicos
- Economizar espaço: um pedal fazendo o trabalho de 4 ou 5
- Reduzir cabos e complexidade: menos pedais = menos cabos patch = menos pontos de falha
- Usar como "cérebro" da board: preamp e IR ficam no multi-efeitos, pedais individuais ficam no loop
Essa abordagem híbrida — multi-efeitos + pedais avulsos para drives favoritos — é cada vez mais popular entre guitarristas profissionais.
Montagem passo a passo
Hora de colocar a mão na massa. Siga esta sequência:
1. Planeje no papel (ou no chão)
Coloque todos os pedais no chão, na ordem que pretende usar. Conecte tudo temporariamente e teste se o som está bom. Ajuste a ordem se necessário.
2. Prepare a board
Limpe a superfície da board. Aplique o velcro (lado loop) em fileiras horizontais, cobrindo toda a área útil. Deixe curar por algumas horas.
3. Aplique velcro nos pedais
Coloque tiras de velcro (lado hook) no fundo de cada pedal. Duas tiras paralelas na parte mais larga do pedal costumam ser suficientes.
4. Posicione os pedais
Comece pela fileira de trás (mais longe dos pés) e vá avançando para a frente. Deixe espaço entre os pedais para os cabos patch.
5. Conecte os cabos de áudio
Siga a ordem do sinal: guitarra → primeiro pedal → segundo pedal → ... → último pedal → amplificador. Use cabos patch do comprimento adequado.
6. Conecte a alimentação
Ligue cada pedal à fonte usando os cabos de alimentação corretos. Organize os cabos com velcro ou abraçadeiras para manter tudo limpo.
7. Teste tudo
Ligue a fonte, teste cada pedal individualmente e depois todos juntos. Ouça se há ruídos estranhos, cortes de sinal ou problemas de volume.
8. Organize os cabos
Passe os cabos de forma organizada, prendendo com abraçadeiras ou velcro. Separe cabos de áudio dos cabos de alimentação sempre que possível.
Dica
Tire uma foto da sua pedalboard finalizada, incluindo os cabos por baixo. Se precisar desmontar para transporte ou manutenção, a foto serve como referência para remontar tudo igual.
Dicas para economizar
Montar uma pedalboard não precisa ser caro. Aqui vão algumas dicas para manter o orçamento sob controle:
- Comece pequeno: 3-4 pedais bem escolhidos são melhor que 10 pedais medianos
- Priorize a fonte: gaste mais na fonte e economize em outros itens. Uma boa fonte dura anos e serve em qualquer board futura
- Compre usado: pedais e boards usados em bom estado funcionam igual aos novos pela metade do preço
- Faça seus próprios cabos: comprar cabo e plugs avulsos e soldar é significativamente mais barato que cabos prontos
- Use uma board DIY: uma tábua de pinus bem cortada e pintada funciona perfeitamente até você poder investir em algo melhor
- Multi-efeitos como atalho: um pedal como o Cube Baby substitui vários pedais individuais por uma fração do custo total
Erros comuns de iniciantes
Alguns deslizes que valem ser evitados:
- Board muito apertada: não deixar espaço para cabos e manutenção. Resultado: dificuldade para trocar pedais ou ajustar controles
- Daisy chain com pedais digitais e analógicos juntos: receita para ruído. Use fonte isolada
- Cabos de baixa qualidade: economia que sai cara. Cabos ruins são a principal causa de problemas intermitentes
- Ignorar a ordem dos pedais: um overdrive depois do delay produz um resultado muito diferente de antes. Estude a cadeia de sinal correta
- Velcro fraco: pedais que soltam no meio do show. Use velcro industrial e aplique corretamente
- Não testar antes de fechar: monte tudo provisoriamente e teste exaustivamente antes de colar o velcro definitivo
- Esquecer o afinador: muita gente deixa o afinador de fora por achar desnecessário. Um instrumento desafinado arruína qualquer timbre
Evoluindo sua pedalboard
Sua primeira pedalboard não vai ser a última. O setup vai evoluir junto com você — novos pedais entram, outros saem, a ordem muda, a board cresce. Faz parte do processo.
O mais importante é ter uma base sólida: boa fonte, cabos confiáveis e uma board com espaço suficiente. Com isso garantido, o resto é experimentação e diversão — que é, no final das contas, o motivo pelo qual a gente toca guitarra.