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Fonte de Alimentação Para Pedais: Como Escolher Certo

14 de janeiro de 20268 min de leitura
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A fonte é o alicerce silencioso da sua pedalboard

Ninguém compra uma fonte de alimentação empolgado. Não é sexy como um delay novo ou emocionante como um overdrive que acabou de chegar. Mas pergunte a qualquer guitarrista experiente qual o equipamento mais importante da pedalboard depois dos pedais, e a resposta quase unânime será: a fonte.

Uma fonte ruim pode arruinar o som de pedais excelentes. Aquele hum constante, aquele chiado de fundo, aquele ruído que aparece quando todos os pedais estão ligados — na maioria das vezes, a culpa é da alimentação. Resolver o problema da fonte resolve, por tabela, metade dos problemas de ruído da sua pedalboard.

Entendendo os fundamentos elétricos

Antes de escolher uma fonte, vale entender três conceitos básicos que vão aparecer em todas as especificações:

Voltagem (V)

A "pressão" elétrica que a fonte fornece. A maioria absoluta dos pedais de guitarra funciona com 9V DC (corrente contínua). Mas existem exceções:

  • 9V: o padrão. 95% dos pedais usam essa voltagem
  • 12V: alguns pedais digitais e modeladores
  • 18V: pedais que funcionam com mais headroom (dinâmica) em 18V — como certos overdrives boutique
  • 9V AC: raridade, mas existe (como o Line 6 M series). Não confunda AC com DC — ligar uma fonte DC num pedal que pede AC (ou vice-versa) pode queimar o circuito

Corrente (mA)

A "quantidade" de energia que flui. Cada pedal consome uma quantidade específica de corrente, medida em miliampères (mA).

  • Pedais analógicos simples: 5-20mA (overdrive, fuzz, boost)
  • Pedais analógicos com mais circuitos: 20-50mA (chorus analógico, phaser, compressor)
  • Pedais digitais: 100-500mA (delay digital, reverb digital, multi-efeitos)
  • Pedais de alta demanda: 500mA+ (multi-efeitos complexos, loopers com memória)

A regra fundamental: a saída da fonte deve fornecer corrente IGUAL ou MAIOR que o consumo do pedal. Se o pedal pede 200mA, a saída precisa oferecer no mínimo 200mA. Fornecer mais corrente não tem problema — o pedal consome apenas o que precisa. Fornecer menos causa mau funcionamento, ruído ou o pedal simplesmente não liga.

Polaridade

A maioria dos pedais de guitarra usa o padrão centro negativo (negative center). O pino central do plug é negativo e a parte externa é positiva. Parece contra-intuitivo, mas é a convenção da indústria de pedais.

Existem exceções (alguns pedais antigos e raros usam centro positivo), então sempre confira antes de ligar. Inverter a polaridade pode queimar o pedal instantaneamente.

Nota

A informação de voltagem, corrente e polaridade está sempre impressa no próprio pedal — geralmente perto da entrada de alimentação. Se não encontrar, consulte o manual ou o site do fabricante.

Daisy chain: a solução barata (e problemática)

A daisy chain (corrente margarida) é um cabo com múltiplos plugs que distribui energia de uma única fonte para vários pedais. É a opção mais barata e simples de alimentar uma pedalboard.

Quando funciona

  • Com 2-4 pedais analógicos simples (overdrives, fuzzes, boosters)
  • Todos usando a mesma voltagem (9V)
  • Em ambientes com pouca interferência eletromagnética
  • Quando a fonte tem corrente suficiente para a soma de todos os pedais

Quando dá problema

  • Mistura de analógicos e digitais: pedais digitais geram ruído de alta frequência no circuito de alimentação que se propaga para os analógicos via cabo compartilhado
  • Muitos pedais: quanto mais pedais na corrente, mais caminhos para o ruído
  • Pedais com consumo alto: um pedal puxando muita corrente pode "roubar" energia dos outros
  • Ground loops: o compartilhamento do terra entre todos os pedais pode criar loops de terra que geram hum

A verdade sobre daisy chain

Para uma pedalboard pequena e 100% analógica, daisy chain funciona bem. Não é necessariamente ruim — muitos profissionais usam em boards simples sem problemas. O problema é quando a board cresce e mistura tecnologias. Aí, a fonte isolada se torna necessidade.

Fonte isolada: o investimento que vale cada centavo

Uma fonte com saídas isoladas fornece alimentação completamente independente para cada pedal. Cada saída tem seu próprio circuito regulador e transformador — como se fossem mini-fontes separadas dentro de uma única caixa.

Por que o isolamento importa

Imagine cada saída como um cômodo separado de uma casa. O barulho de um cômodo não chega ao outro. Da mesma forma, o ruído elétrico gerado por um pedal digital na saída 1 não contamina o pedal analógico na saída 2.

O resultado prático: uma pedalboard silenciosa. O ruído de fundo cai dramaticamente — às vezes é a diferença entre um setup utilizável e um inutilizável em gravação.

O que verificar numa fonte isolada

  1. Número de saídas: conte seus pedais, adicione 2-3 extras para futuras adições
  2. Corrente por saída: verifique se cada saída fornece corrente suficiente para o pedal correspondente. Muitas fontes têm saídas de 100mA (suficiente para analógicos) e 1-2 saídas de 300-500mA (para digitais)
  3. Saídas com voltagem variável: algumas fontes oferecem saídas ajustáveis (9V, 12V, 18V) — extremamente útil para pedais com requisitos diferentes
  4. Tamanho e formato: a fonte precisa caber embaixo ou ao lado da sua board
  5. Qualidade da regulação: fontes baratas podem ter regulação instável que gera ruído sob carga

Fontes populares no Brasil

Faixa acessível: - Vithor Custom: marca brasileira com excelente custo-benefício. Modelos de 5-10 saídas isoladas - Fire Power: outra brasileira confiável, com opções de 9V e 18V - Landscape: opções compactas para pedalboards menores

Faixa intermediária: - MXR DC Brick: compacta, confiável, 10 saídas (nem todas isoladas — verifique o modelo) - Truetone CS6/CS7/CS12: saídas totalmente isoladas, voltagens múltiplas

Faixa premium: - Strymon Zuma/Ojai: referência em qualidade e silêncio. Caras, mas impecáveis - Cioks: marca dinamarquesa, profissional. Saídas configuráveis - Voodoo Lab Pedal Power: clássica, confiável, muito usada por profissionais

Dica

Não precisa comprar a fonte mais cara do mercado. Uma Vithor Custom ou Fire Power brasileira de saídas isoladas resolve o problema para 90% das pedalboards. Gaste mais só se tiver necessidades específicas como voltagens variáveis ou muitas saídas de alta corrente.

Bateria: ainda faz sentido?

Muitos pedais aceitam alimentação por bateria 9V. Será que vale a pena usar?

Vantagens da bateria

  • Isolamento perfeito: cada pedal com sua bateria é, por definição, 100% isolado dos demais
  • Zero ruído de fonte: sem fonte, sem ruído de fonte
  • Portabilidade: para situações rápidas onde montar a pedalboard completa não compensa
  • Fuzzes vintage: alguns fuzzes (especialmente os de germânio) mudam de timbre conforme a bateria descarrega — e muitos guitarristas preferem o som da bateria parcialmente gasta

Desvantagens da bateria

  • Custo recorrente: baterias alcalinas não são baratas quando trocadas frequentemente
  • Inconveniência: trocar baterias de vários pedais é tedioso, especialmente em pedais com tampa parafusada
  • Risco de esquecimento: esquecer o cabo plugado no pedal drena a bateria (a maioria dos pedais desliga a bateria quando o cabo é removido da entrada)
  • Impacto ambiental: pilhas descartáveis são resíduo tóxico

Na prática, bateria faz sentido em duas situações: pedalboards muito pequenas (1-2 pedais) e fuzzes que soam melhor com bateria. Para todo o resto, fonte é o caminho.

O [PRODUCT:cube-baby], por exemplo, tem bateria recarregável integrada via USB-C — a praticidade da bateria sem o problema de troca constante. Perfeito para prática rápida ou situações de rua onde não há tomada disponível.

Problemas comuns e soluções

Hum de 60Hz constante

Causa provável: ground loop (loop de terra) entre pedais ou entre pedalboard e amplificador.

Soluções: - Use fonte isolada - Teste removendo pedais um a um até identificar o causador - Adicione um isolador de ground loop na cadeia - Verifique se o amplificador e a pedalboard estão na mesma tomada

Chiado/ruído de alta frequência

Causa provável: interferência digital de pedais digitais contamindo a alimentação.

Soluções: - Isole pedais digitais em saídas separadas da fonte - Nunca coloque pedais digitais e analógicos na mesma daisy chain - Use cabos de alimentação mais curtos - Um [PRODUCT:noise-gate] no final da cadeia pode ajudar a silenciar o ruído nos momentos de pausa

Ruído que piora com o drive ligado

Causa provável: o pedal de drive amplifica o ruído que já existia no sinal.

Soluções: - Isso é normal até certo ponto — ganho amplifica tudo, incluindo ruído - Melhore a alimentação dos pedais anteriores ao drive - Use um noise gate antes do drive (ou no loop do amp) - Verifique os cabos — cabos patch ruins adicionam ruído que o drive amplifica

Pedal não liga ou funciona intermitente

Causa provável: corrente insuficiente ou mau contato.

Soluções: - Confira se a saída da fonte fornece corrente suficiente (mA) para o pedal - Verifique a polaridade (centro negativo vs centro positivo) - Teste com outro cabo de alimentação — o problema pode ser o cabo - Certifique-se de que a voltagem é correta (9V, 12V, etc.)

Organizando os cabos de alimentação

Cabos de força desorganizados na pedalboard são fonte de problemas — tanto estéticos quanto funcionais. Cabos de alimentação passando perto de cabos de áudio podem induzir ruído.

Dicas de organização

  • Separe cabos de áudio e de alimentação: mantenha-os em lados opostos ou em diferentes alturas
  • Use abraçadeiras de velcro (não de plástico — velcro permite reajustes fáceis)
  • Comprimento correto: cabos muito longos criam excesso; corte ou substitua
  • Prenda a fonte firmemente: fonte solta = cabos puxados = mau contato
  • Identifique cada cabo: etiquetas nos cabos indicando qual pedal alimentam facilitam a manutenção

Dica

Organize os cabos de alimentação DEPOIS de finalizar o layout dos pedais e os cabos de áudio. A alimentação é o último passo da montagem — assim você sabe exatamente o comprimento necessário para cada cabo.

Dimensionando sua fonte

Antes de comprar, faça as contas:

  1. Liste todos os seus pedais
  2. Anote o consumo de cada um (mA) — está no manual ou no site do fabricante
  3. Some o consumo total
  4. Adicione 20% de margem
  5. Verifique se a fonte escolhida suporta esse total e se cada saída individual suporta o pedal correspondente

Exemplo prático:

| Pedal | Consumo | |-------|---------| | Afinador | 50mA | | Compressor | 25mA | | Overdrive | 10mA | | Delay digital | 200mA | | Reverb digital | 180mA | | Total | 465mA | | Com margem 20% | 558mA |

Nesse caso, uma fonte com pelo menos 600mA de capacidade total e pelo menos duas saídas de 200mA+ (para os pedais digitais) seria necessária.

Conclusão prática

Se a sua pedalboard tem mais de 3 pedais ou mistura analógicos com digitais, invista numa fonte isolada. É o tipo de compra que não empolga na hora, mas que elimina frustrações que você nem sabia que poderia evitar.

Uma boa fonte dura anos, funciona com qualquer configuração de pedalboard e faz todos os seus pedais soarem como deveriam soar — limpos, silenciosos e com toda a dinâmica que os projetistas pretendiam. É o fundamento sobre o qual todo o resto da sua pedalboard se apoia.

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