Bypass: o que acontece quando o pedal está desligado
Você pisa no pedal e o efeito desliga. Simples, certo? Nem tanto. O que acontece com o sinal da sua guitarra quando o pedal está em modo bypass (desligado) é uma das discussões mais acaloradas entre guitarristas. E por bom motivo: dependendo do tipo de bypass, o pedal pode estar alterando seu som mesmo quando não está fazendo nada.
Todo pedal de efeito tem um circuito que processa o sinal (o efeito em si) e um switch que alterna entre o efeito ligado e o efeito desligado. A forma como esse switch funciona determina o que acontece com o seu sinal quando o pedal está off. E existem basicamente duas abordagens: true bypass e buffered bypass.
True bypass: o sinal direto
No true bypass, quando o pedal está desligado, o switch cria uma conexão mecânica direta entre a entrada e a saída. O sinal da guitarra passa pelo pedal como se fosse um cabo - sem tocar em nenhum componente eletrônico do circuito do efeito.
A ideia é simples e elegante: se o pedal está desligado, ele não deveria afetar o som de forma alguma. O sinal entra por um lado, sai pelo outro, intocado. Guitaristas puristas adoram true bypass porque, em teoria, garante que o timbre original do instrumento chegue intacto ao amplificador.
Como funciona na prática
O switch de um pedal true bypass geralmente é um 3PDT (triple pole, double throw) que literalmente reconecta os caminhos do sinal de forma mecânica. Quando ligado, o sinal passa pelo circuito do efeito. Quando desligado, o sinal é roteado diretamente da entrada para a saída, desviando completamente do circuito interno.
Isso significa zero coloração, zero impedância adicionada pelo circuito do efeito e zero componentes eletrônicos no caminho do sinal. É o mais transparente possível.
O problema do true bypass
Mas calma, nem tudo são flores. O true bypass tem um calcanhar de Aquiles: cabos longos.
O sinal de uma guitarra com captadores passivos (a maioria das guitarras) é um sinal de alta impedância. Esse tipo de sinal é sensível à capacitância dos cabos - quanto mais cabo o sinal percorre, mais as frequências agudas vão sendo absorvidas. O resultado? Perda de brilho e presença. Isso é o que os guitarristas chamam de tone suck.
Se você tem três pedais e dois metros de cabo entre cada um, o sinal percorre uns seis metros de cabo além do cabo da guitarra e do cabo do amp. Pode não ser muito. Mas se você tem dez pedais em uma pedalboard grande, com patch cables entre todos, o comprimento total pode passar facilmente de quinze metros. E aí o tone suck fica perceptível.
Nota
O tone suck não é culpa do true bypass em si. É uma consequência física do sinal de alta impedância percorrendo muito cabo. O true bypass apenas não faz nada para combater isso.
Buffered bypass: proteção ativa do sinal
No buffered bypass, quando o pedal está desligado, o sinal não passa direto. Em vez disso, ele passa por um buffer - um pequeno circuito que converte o sinal de alta impedância para baixa impedância sem alterar o volume ou o timbre.
Por que isso importa
Um sinal de baixa impedância é muito mais resistente à perda causada por cabos longos. Ele mantém as frequências agudas e a presença do som mesmo depois de percorrer distâncias grandes. É como dar um escudo ao seu sinal.
Muitos pedais clássicos usam buffered bypass. O Boss DS-1, por exemplo, sempre foi buffered - e ninguém reclama do som do Kurt Cobain. Pedais da Boss em geral são buffered, e a qualidade dos buffers deles é considerada muito boa.
O lado negativo do buffer
Um buffer ruim pode ser pior que nenhum buffer. Buffers de baixa qualidade podem adicionar ruído, alterar a resposta de frequência ou colorir o timbre de formas indesejadas. Nos anos 90 e 2000, muitos pedais baratos tinham buffers ruins, e isso ajudou a criar a fama de que "buffered bypass = som ruim". Mas isso é culpa do buffer ruim, não do conceito de buffer.
Outro ponto: alguns efeitos, como fuzz faces vintage, interagem com a impedância do captador da guitarra. Colocar um buffer antes de um fuzz face pode mudar completamente a resposta do pedal, geralmente para pior. Se você usa fuzz vintage, prefira que ele "veja" o sinal direto da guitarra, sem buffer no caminho.
True bypass vs buffered bypass: comparação direta
Transparência quando desligado: True bypass é completamente transparente; buffered bypass depende da qualidade do buffer.
Resistência a cabos longos: Buffered bypass ganha disparado. True bypass sofre com percursos longos de cabo.
Interação com fuzz: True bypass preserva a interação natural; buffer pode prejudicar.
Ruído ao ligar/desligar: True bypass pode ter um "pop" mecânico do switch; buffered bypass geralmente é silencioso na transição.
Complexidade do circuito: True bypass é mais simples; buffered bypass requer componentes adicionais.
Na prática, a discussão true bypass vs buffered é menos "um contra o outro" e mais "onde colocar cada um". A maioria dos guitarristas profissionais mistura os dois na pedalboard, conscientemente ou não.
A solução prática: misture os dois
A abordagem mais inteligente para a maioria dos guitarristas é ter pelo menos um bom buffer na cadeia de sinal - geralmente no início ou no fim (ou ambos). Depois, o resto dos pedais pode ser true bypass sem problema.
Muitos tuners de pedalboard, como o Boss TU-3, funcionam como buffer de alta qualidade no início da cadeia. Se o seu primeiro pedal é um tuner buffered, ele já converte o sinal para baixa impedância, e todos os pedais true bypass depois dele se beneficiam.
Dica
Uma regra prática: se você tem menos de 5 pedais e usa cabos curtos (patch cables de 15-30cm), true bypass em tudo funciona bem. Se tem mais de 5 pedais ou cabos longos, coloque pelo menos um buffer no início da cadeia.
Pedais que geralmente são true bypass
- Pedais boutique e artesanais
- Muitos pedais das marcas MXR, EHX, TC Electronic, JHS
- Pedais CUVAVE como o [PRODUCT:overdrive-ts]
Pedais que geralmente são buffered bypass
- Linha Boss (DS-1, DD-7, CE-5, etc.)
- Ibanez Tube Screamer (versões mais novas)
- Alguns pedais Line 6
Quando o bypass realmente importa
Vamos ser honestos: para a maioria dos guitarristas tocando em casa ou em bandas de bar, a diferença entre true bypass e buffered bypass é sutil. Você provavelmente não vai perceber a diferença com três ou quatro pedais e cabos decentes.
A discussão se torna mais relevante quando:
- Você tem uma pedalboard grande (8+ pedais)
- O percurso total de cabo é longo (mais de 10 metros)
- Você usa captadores de alta qualidade e quer preservar cada nuance do timbre
- Você toca em estúdio onde cada detalhe é captado pelo microfone
- Você mistura equipamentos vintage que são sensíveis à impedância
O teste do cabo
Quer saber se tone suck é um problema no seu setup? Faça o seguinte: conecte sua guitarra direto no amp com um cabo curto e toque. Preste atenção no brilho, na presença e na clareza. Depois, conecte através de toda a sua pedalboard com todos os pedais desligados e toque a mesma coisa. Se o som ficou mais escuro, opaco ou sem vida, você está perdendo sinal.
A solução pode ser simples: adicione um buffer no início da cadeia. Pode ser um pedal de buffer dedicado ou simplesmente um pedal com buffered bypass de qualidade (como um tuner Boss).
Mitos sobre true bypass
"True bypass é sempre melhor." Falso. É melhor em algumas situações, pior em outras.
"Buffered bypass colore o som." Depende. Um bom buffer é transparente. Um buffer ruim pode colorir, sim.
"Preciso trocar todos os meus pedais por true bypass." Não. Um ou dois buffers na cadeia são benéficos, não prejudiciais.
"True bypass elimina todo ruído." Não. O bypass não tem relação direta com ruído - isso depende da qualidade do pedal, da fonte de alimentação e do cabeamento.
Outros tipos de bypass
Além de true bypass e buffered bypass, existem variações:
Relay bypass: Usa um relê eletrônico em vez de um switch mecânico. É true bypass (sinal direto quando desligado), mas com a vantagem de não ter o "pop" do switch mecânico. O [PRODUCT:chorus] e vários pedais modernos usam relay switching.
Trails bypass: Encontrado em pedais de delay e reverb, permite que as repetições ou a cauda do reverb continuem soando naturalmente depois que você desliga o pedal. Se fosse true bypass puro, o som cortaria abruptamente. No trails mode, o efeito faz um fade out suave.
Electronic switching / soft switching: O switch não é mecânico - você pisa em um botão eletrônico que ativa um circuito de comutação. Pode ser true bypass via relê ou buffered, dependendo do design.
Escolhendo com consciência
No fim das contas, a escolha entre true bypass e buffered bypass é uma questão de contexto, não de dogma. Entenda seu setup, faça o teste do cabo, e tome decisões baseadas no que seus ouvidos dizem - não no que o marketing promete.
O pedal perfeito não existe. Mas um setup bem pensado, com a combinação certa de true bypass e buffers nos lugares certos, vai extrair o máximo do seu sinal e do seu timbre. E isso, sim, você vai ouvir.