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Pedal Wah: História, Tipos e Como Usar na Guitarra

10 de fevereiro de 20269 min de leitura
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O efeito que deu voz à guitarra

Se existe um pedal que transformou a guitarra elétrica em algo que quase fala, é o wah. Aquele som choroso, expressivo e inconfundível que atravessa décadas de rock, funk, blues e soul. Você já ouviu centenas de vezes, mesmo que não soubesse o nome: o intro de "Voodoo Child" do Jimi Hendrix, os riffs de "Shaft" do Isaac Hayes, o tema de "Superfly" do Curtis Mayfield. O wah está por toda parte.

O que torna o wah especial é que ele não é apenas um efeito que você liga e esquece. Ele é um instrumento de expressão. Cada movimento do seu pé muda o som em tempo real, e a forma como você manipula o pedal é tão pessoal quanto a forma como você usa a palheta. Dois guitarristas tocando a mesma nota com o mesmo wah vão soar completamente diferentes.

A história do pedal wah

O nascimento acidental

A história do wah começa em 1966, nos laboratórios da Thomas Organ Company, que fabricava amplificadores Vox. O engenheiro Brad Plunkett estava tentando criar um substituto mais barato para um componente do amplificador Vox Super Beatle quando notou algo interessante: ao girar um potenciômetro em um circuito de mid-boost, o som resultante era uma varredura de frequências que lembrava uma voz dizendo "wah".

O chefe de Plunkett, Stan Cutler, percebeu o potencial comercial imediatamente. Colocaram o circuito dentro de um pedal com uma base basculante (emprestada de um pedal de volume Vox) e nasceu o Vox Clyde McCoy Wah-Wah, batizado em homenagem ao trompetista cujo som de trompete com surdina era parecido com o efeito. O pedal foi lançado em 1967.

Jimi Hendrix e a explosão do wah

O wah poderia ter sido apenas uma curiosidade se não fosse Jimi Hendrix. Quando Hendrix colocou as mãos em um wah, o mundo da guitarra nunca mais foi o mesmo. Em faixas como "Voodoo Child (Slight Return)", "Still Raining, Still Dreaming" e "Burning of the Midnight Lamp", ele mostrou que o wah não era um truque de uma nota só. Era uma ferramenta de expressão tão importante quanto o próprio amplificador.

Hendrix usava o wah de formas que ninguém tinha imaginado: em acordes, em riffs rítmicos, combinado com distorção pesada, durante solos inteiros. Ele tratava o wah como uma extensão da sua mão, reagindo em tempo real ao que estava tocando.

O wah encontra o funk

Se Hendrix levou o wah para o rock, o funk abraçou o efeito com igual fervor. Guitarristas como Wah Wah Watson (cujo nome artístico já diz tudo), Jimmy Nolen (guitarrista do James Brown) e Eddie Hazel (Funkadelic) fizeram do wah uma peça central do som funk dos anos 70.

No funk, o wah ganhou uma função rítmica que era diferente do uso no rock. Em vez de varreduras longas e expressivas, os guitarristas de funk usavam movimentos curtos e sincronizados com o groove, criando aquele som "chicoteado" que define o gênero. O pedal wah se tornou tão essencial para o funk quanto a caixa na cabeça do tempo.

Do rock clássico ao grunge

Ao longo das décadas, o wah se manteve relevante. Kirk Hammett do Metallica fez do wah sua assinatura em praticamente todo solo que gravou. Slash usou extensivamente no Guns N' Roses. Jerry Cantrell do Alice in Chains trouxe o wah para o grunge. Tom Morello do Rage Against the Machine criou sons alienígenas manipulando o wah de formas não convencionais. John Frusciante dos Red Hot Chili Peppers combinou wah com funk de um jeito que conectou os anos 70 aos 2000.

Como funciona o pedal wah

O wah é essencialmente um filtro de frequências controlado pelo pé. Dentro do pedal, existe um circuito que enfatiza (aumenta o volume) de uma faixa estreita de frequências. Quando você move o pedal para frente e para trás, essa faixa se desloca pelo espectro, dos graves para os agudos e vice-versa.

  • Pedal todo para trás (calcanhar): A faixa enfatizada está nas frequências graves. O som fica escuro e abafado.
  • Pedal todo para frente (ponta do pé): A faixa enfatizada está nas frequências agudas. O som fica brilhante e nasalado.
  • Movendo entre os dois extremos: A faixa percorre as frequências, criando o som "wah-wah".

A faixa de frequências que é enfatizada é chamada de "Q" ou ressonância. Quanto mais estreita (Q alto), mais pronunciado e nasal é o efeito. Quanto mais larga (Q baixo), mais sutil e suave. Diferentes modelos de wah têm Q diferentes, o que explica por que cada wah soa um pouco diferente.

Nota

O wah clássico usa um indutor no circuito, que é responsável pelo caráter tonal do efeito. Indutores diferentes produzem sons diferentes, e essa é a razão pela qual guitarristas são tão específicos sobre qual modelo de wah preferem. Modelos com indutor Halo tendem a ter um som mais escuro e suave, enquanto os com indutor Fasel soam mais brilhantes e agressivos.

Tipos de pedal wah

Wah tradicional (tipo cry-baby)

O Dunlop Cry Baby (e suas dezenas de variações) é o wah mais famoso e mais vendido do mundo. O formato é aquele clássico: um pedal basculante que você move com o pé. O circuito é baseado no design original dos anos 60, com variações no tipo de indutor, na faixa de varredura e no Q.

O Cry Baby original GCB-95 é o modelo de entrada, com um som que funciona para praticamente tudo. Para quem quer algo mais específico, existem modelos signature (Kirk Hammett, Slash, Jerry Cantrell, Jimi Hendrix) que têm a varredura e o Q ajustados para o estilo de cada guitarrista.

O Vox V847, herdeiro direto do wah original de 1967, é a outra escolha clássica. Geralmente considerado mais suave e musical que o Cry Baby, com uma varredura que favorece médios mais "cremosos".

Auto-wah

O auto-wah faz a mesma coisa que um wah tradicional, mas sem o pedal basculante. Em vez de ser controlado pelo pé, ele é acionado pela dinâmica da sua palhetada. Toque forte, e o filtro abre (vai para os agudos). Toque suave, e o filtro fecha (volta para os graves). É como ter um wah que responde automaticamente à sua intensidade.

O auto-wah é popular no funk (Mu-Tron III, usado por Stevie Wonder e Bootsy Collins), no jazz fusion e em setups onde o guitarrista não quer usar mais um pedal basculante. A desvantagem é que você perde o controle direto que o wah manual oferece. A vantagem é que suas duas mãos ficam livres e o efeito responde organicamente à sua dinâmica.

Envelope filter

O envelope filter é o primo mais sofisticado do auto-wah. Ele também responde à dinâmica do sinal, mas com mais controles: sensibilidade, velocidade de ataque, range do filtro e direção (o filtro pode ir dos graves para os agudos ou dos agudos para os graves). Alguns modelos permitem ajustar o tipo de filtro (passa-baixa, passa-banda, passa-alta).

O Mu-Tron III original é o envelope filter mais lendário. Jerry Garcia do Grateful Dead usou extensivamente, e o som ficou associado ao funk psicodélico dos anos 70. Pedais modernos como o EHX Q-Tron e o 3Leaf Audio Proton mantêm essa tradição.

Wah com features extras

Modelos modernos adicionam funcionalidades ao conceito clássico. Alguns têm controle de Q ajustável, que permite mudar a "nasalidade" do efeito. Outros têm boost interno para compensar qualquer perda de volume. Alguns permitem ajustar a faixa de varredura (frequência mínima e máxima). E há modelos com true bypass, que eliminam o problema de sugamento de agudos que wahs vintage podem causar quando desligados.

Dica

Se o seu wah parece estar "roubando" agudos do seu som mesmo quando desligado, o problema é o bypass. Wahs antigos usam bypass simples que carrega o sinal. Considere um modelo com true bypass ou adicione um buffer de qualidade na cadeia para resolver o problema.

Como usar o pedal wah

Técnicas básicas

Varredura lenta em solos: Mova o pedal lentamente durante notas longas para criar expressão. Cada nota "canta" de um jeito diferente dependendo da posição do pedal. Essa é a abordagem clássica de Hendrix e Clapton.

Varredura rítmica no funk: Sincronize o movimento do pedal com o ritmo da música. O mais comum é abrir o pedal (ponta do pé) nos tempos fortes e fechar (calcanhar) nos contratempos. Pratique com um metrônomo até o movimento ficar automático.

"Cocked wah" (wah fixo): Deixe o wah ligado em uma posição fixa, sem mover o pedal. Isso cria um filtro estático que colore o timbre de uma forma específica. Michael Schenker usava muito essa técnica, deixando o wah parcialmente aberto para um som nasalado e agressivo. Mark Knopfler também usava wah fixo em vários timbres do Dire Straits.

Wah com distorção: Ligar o wah antes da distorção enfatiza o efeito de filtragem, criando um som mais dramático e pronunciado. Ligar depois da distorção resulta em um efeito mais suave e controlado. A maioria dos guitarristas prefere wah antes da distorção, mas experimente as duas posições.

Onde colocar o wah na cadeia de efeitos

A posição clássica do wah é logo no início da cadeia, antes de overdrive e distorção:

Guitarra → Tuner → Wah → Compressor → Overdrive → Modulação → Delay → Reverb

Essa posição garante que o wah filtre o sinal puro da guitarra, e a distorção depois enfatize as frequências selecionadas pelo wah. O resultado é um som wah mais extremo e pronunciado.

Mas existe a opção de colocar o wah depois da distorção. Nessa posição, o wah filtra o sinal já distorcido, resultando em um som mais suave e menos dramático. Alguns guitarristas preferem assim, especialmente para solos com distorção pesada onde um wah pré-distorção seria excessivo.

O [PRODUCT:cube-baby] é uma opção interessante para experimentar com posições de efeitos, já que funciona como um multi-efeitos compacto onde você pode reorganizar a cadeia facilmente.

Se você usa um multi-efeitos como o CUVAVE Cube Baby, a vantagem é poder testar diferentes posições do wah virtual na cadeia sem precisar reconectar cabos.

Nota

Uma dica de profissional: se você está montando sua pedalboard e quer incluir um wah, lembre-se de que pedais basculantes ocupam bastante espaço. Planeje a disposição antes de comprar a board. O wah geralmente fica posicionado na borda mais próxima do guitarrista, para fácil acesso do pé.

Guitarristas famosos e seus wahs

Jimi Hendrix Modelo: Vox Clyde McCoy / Cry Baby. Uso: em praticamente tudo. Hendrix definiu o vocabulário do wah no rock. Ouça: "Voodoo Child (Slight Return)", "Burning of the Midnight Lamp".

Kirk Hammett Modelo: Dunlop KH95 Kirk Hammett Signature. Uso: solos em praticamente toda a discografia do Metallica a partir de "Master of Puppets". Kirk é provavelmente o guitarrista que mais usa wah em solos na história do metal.

Slash Modelo: Dunlop SW-95 Slash Signature. Uso: solos icônicos em timbres crunch. Ouça: "Sweet Child O' Mine", "November Rain", "Godfather Theme".

Tom Morello Modelo: Dunlop Cry Baby. Uso: efeitos sonoros experimentais, combinando wah com killswitch e feedback. Tom usa o wah de formas que ninguém imaginou possíveis. Ouça: "Bulls on Parade", "Killing in the Name".

John Frusciante Modelo: Ibanez WH10. Uso: funk-rock com influência dos anos 70. John trouxe o wah funk de volta ao mainstream nos anos 2000. Ouça: "Dani California", "Can't Stop".

Jerry Cantrell Modelo: Dunlop JC95 Jerry Cantrell Signature. Uso: riffs pesados em afinação baixa, com um som wah escuro e denso. Ouça: "Man in the Box", "Would?".

Dicas finais para tirar o máximo do seu wah

  • Pratique sem amplificador primeiro. Parece estranho, mas movimentar o pedal de wah com fluidez exige coordenação entre pé e mãos. Pratique o movimento do pedal sincronizado com a palhetada até virar algo natural.
  • Não exagere. O wah é viciante, e é tentador usá-lo em tudo. Mas o efeito tem mais impacto quando usado com moderação. Guarde para os momentos onde ele realmente adiciona algo à música.
  • Cuide da manutenção. O potenciômetro interno do wah sofre desgaste com o uso. Se o pedal começar a arranhar ou perder a suavidade, pode ser hora de trocar o pot. É um reparo simples e barato.
  • Explore velocidades diferentes. Não fique preso a uma só velocidade de varredura. Movimentos lentos criam expressão e drama. Movimentos rápidos criam excitação e urgência. A variedade é o que torna o wah interessante.
  • Combine com outros efeitos. Wah com delay cria texturas hipnóticas. Wah com phaser é psicodelia pura. Wah com fuzz é Hendrix. Não tenha medo de experimentar combinações.

O wah é um desses pedais que recompensa a prática e a experimentação. Quanto mais você usa, mais descobre possibilidades. E a melhor parte é que o seu estilo de usar wah vai ser único, porque ninguém move o pé exatamente como você.

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