Por Que Estudar Pedalboards de Profissionais?
Ver o que guitarristas que admiramos usam nos seus pedais é mais do que curiosidade — é educação. Cada pedalboard conta uma história sobre como aquele músico pensa sobre timbre, quais efeitos são essenciais pro seu som e como a cadeia de sinal funciona na prática.
Mas tem um ponto importante: copiar exatamente o setup de alguém famoso não vai fazer você soar como ele. O som vem das mãos, do toque, da dinâmica — os pedais são apenas ferramentas. O que você pode aprender é a lógica por trás das escolhas, os tipos de efeito que cada estilo exige e como combinar pedais de forma inteligente.
Dito isso, vamos ver de perto os pedalboards de alguns dos guitarristas mais influentes da história.
David Gilmour (Pink Floyd)
O mestre do timbre
O pedalboard de David Gilmour é um dos mais estudados e documentados do mundo. Não é por acaso — o som de Gilmour é sinônimo de guitarra com efeitos usados de forma musical e expressiva. Cada efeito serve à emoção da música, nunca à demonstração técnica.
Pedais principais
- Big Muff Pi (várias versões): o fuzz que define o som de Gilmour em "Comfortably Numb", "Time" e "Money". Ele já usou diferentes versões ao longo dos anos — Ram's Head nos anos 70, Civil War nos anos 90.
- Boss CS-2 Compressor: compressão sutil que ajuda o sustain limpo em passagens como o intro de "Money".
- Electro-Harmonix Electric Mistress: o flanger lento em "Have a Cigar" e outros momentos do Pink Floyd.
- MXR Dynacomp: outro compressor no setup, usado em contextos diferentes do Boss.
- Boss DD-2 / TC Electronic 2290: delay é absolutamente central no som de Gilmour. O delay em "Run Like Hell" (com tap tempo preciso) e os delays longos em solos são tão importantes quanto as próprias notas.
- Tremolo (Demeter Tremulator): o pulsar de "Money" e outras faixas.
Filosofia de timbre
Gilmour usa efeitos pra criar paisagens sonoras emocionais. O delay não é decoração — é estrutura. O fuzz não é peso — é sustain expressivo. Se você quer aprender a usar efeitos com propósito, estude Gilmour.
Dica
Pra se aproximar do som de Gilmour com orçamento baixo: um bom fuzz, um delay com controle de feedback generoso e um compressor sutil. Foque em tocar devagar, com controle de dinâmica e bends expressivos. O segredo está no toque, não nos pedais.
John Mayer
Do blues ao pop com versatilidade
O pedalboard de John Mayer mudou bastante ao longo dos anos, mas sempre manteve uma filosofia: overdrives empilhados, efeitos de modulação sutis e muita atenção à dinâmica.
Pedais principais
- Klon Centaur (e depois Klon KTR): o overdrive transparente que virou lenda (e custa milhares de dólares no mercado usado). Mayer usa pra dar "brilho" e sustain sem mudar fundamentalmente o caráter do amp.
- Ibanez TS10 Tube Screamer: empilhado com o Klon pra sons de blues mais carregados. O Tube Screamer corta graves e empurra os médios — perfeito pra solo de blues que precisa cortar na mix.
- Boss BD-2 Blues Driver: outro overdrive no arsenal, mais "sujo" que o Klon.
- Way Huge Aqua-Puss: delay analógico curto pra slapback e ambiência sutil.
- Strymon Flint: tremolo e reverb num pedal só.
- MXR Phase 90: phaser sutil pra adicionar movimento em passagens limpas.
Filosofia de timbre
Mayer é obcecado com overdrives. Seu conceito é ter múltiplos níveis de ganho disponíveis — limpo, levemente saturado (Klon sozinho), saturado médio (Klon + Tube Screamer) e carregado (todos juntos). Isso dá uma paleta dinâmica enorme sem precisar tocar no amp.
O [PRODUCT:overdrive-ts] segue a mesma lógica do Tube Screamer que Mayer tanto usa — aquele empurrão de médios e corte de graves que faz o solo de blues se destacar.
The Edge (U2)
O arquiteto do delay
Se Gilmour é o mestre do fuzz expressivo, The Edge é o mestre absoluto do delay. O som do U2 é construído em cima de delays rítmicos que criam padrões complexos a partir de notas simples.
Pedais principais
- Korg SDD-3000: o delay digital rack que definiu o som do U2 nos anos 80. "Where the Streets Have No Name" é impossível sem ele.
- Electro-Harmonix Memory Man / Deluxe Memory Man: delay analógico quente usado em diversas faixas.
- Line 6 DL4: delay digital com múltiplos modos e looper. Ferramenta de trabalho ao vivo.
- Boss DD-20 Giga Delay: outro delay (sim, ele usa vários ao mesmo tempo).
- Vox AC30: tecnicamente o amp, não pedal, mas tão central que precisa ser mencionado. O breakup sutil do AC30 combinado com delays é o som do U2.
- TC Electronic Nova Delay: usado em turnês mais recentes pra precisão de tap tempo.
- Shimmer reverb (vários): reverb com oitava acima, criando aquele som etéreo e celestial.
Filosofia de timbre
Edge toca notas simples e deixa o delay criar a complexidade. "Where the Streets Have No Name" usa um delay em colcheias pontilhadas (dotted eighth note) — cada nota que ele toca é repetida pelo delay e cria um padrão rítmico que soa muito mais complexo do que realmente é.
A lição: você não precisa tocar rápido pra soar complexo. Delays rítmicos, bem sincronizados com o tempo da música, transformam frases simples em texturas elaboradas. Se você gosta dessa abordagem, estudar delay em profundidade é essencial.
Stevie Ray Vaughan
Menos é mais — quando o amp faz o trabalho
O pedalboard de SRV era surpreendentemente simples pra alguém com um dos timbres mais icônicos da história do blues.
Pedais principais
- Ibanez TS808 Tube Screamer: o pedal mais associado a SRV. Usado não pra distorcer muito, mas pra empurrar o amp Fender um pouco mais. O ganho no TS808 ficava relativamente baixo — era mais sobre o boost de médios e volume.
- Dallas-Arbiter Fuzz Face: pra momentos mais pesados, inspirado em Hendrix.
- Vox Wah-wah: usado seletivamente em solos.
- E basicamente... só isso. O resto do som vinha dos Fender Vibroverb e Super Reverb cranked a volumes altíssimos.
Filosofia de timbre
SRV prova que timbre vem das mãos. Cordas grossas (.013 na primeira!), palhetada agressiva, toque dinâmico extremo — ele tirava mais expressão de um Tube Screamer e um Fender no volume 10 do que a maioria tira de um pedalboard inteiro. A lição: antes de comprar mais pedais, domine o que já tem.
John Frusciante (Red Hot Chili Peppers)
Caos controlado com efeitos vintage
Frusciante é conhecido por usar equipamentos vintage e aceitar imperfeições como parte do som. Seu pedalboard variou muito entre eras do RHCP.
Pedais principais
- Boss DS-2 Turbo Distortion: o pedal mais associado a Frusciante. Aquele som distorcido e rasgado de "Dani California" e "By the Way" vem daqui.
- Electro-Harmonix Big Muff Pi: fuzz gordo pra passagens mais pesadas.
- Boss CE-1 Chorus Ensemble: chorus vintage gigante que adiciona profundidade ao som limpo.
- WH-4 Wah / WH-10 Wah: wah-wah é frequente nos seus riffs e solos.
- MXR Micro Amp: boost limpo pra solos.
- Electro-Harmonix Holy Grail: reverb pra ambiência.
Filosofia de timbre
Frusciante mistura funk, punk e psicodelia. Ele não busca perfeição — busca emoção. Distorção rasgada combinada com partes limpas cheias de chorus e dinâmica extrema (do sussurro ao grito) são sua marca. A imperfeição é intencional e faz parte do apelo.
Nota
Frusciante é um grande defensor de amps valvulados cranked. Ele escolhe amplificadores pelo breakup natural, não pelos recursos modernos. Marshall Major dos anos 70 e Fender são seus favoritos.
Tom Morello (Rage Against the Machine / Audioslave)
Criatividade radical com ferramentas simples
Tom Morello produz sons que parecem vir de sintetizadores e turntables — mas é tudo guitarra processada por um setup surpreendentemente básico.
Pedais principais
- Digitech WH-1 Whammy: o pedal mais importante do setup de Morello. Os efeitos de pitch shift em "Killing in the Name", "Bulls on Parade" e basicamente tudo do RATM vêm daqui.
- DOD FX40B EQ: equalização pra esculpir frequências em tempo real.
- Boss DD-3 / DD-2 Digital Delay: delay curto pra efeitos rítmicos e loops improvisados.
- Dunlop Cry Baby Wah: wah-wah pra mais texturas.
- Jim Dunlop MXR Phase 90: phaser pra passagens mais atmosféricas.
Filosofia de timbre
A genialidade de Morello não está nos pedais — está na forma como ele os usa. Toggle switch kill switch, feedback controlado, raspadas nas cordas com a palheta acima do nut, slides atrás do braço — ele trata a guitarra como um instrumento experimental. Os pedais são amplificadores da sua criatividade, não substitutos dela.
Kevin Shields (My Bloody Valentine)
Paredes de som com reverb e tremolo
Kevin Shields criou um dos sons mais influentes e misteriosos do shoegaze com técnicas e efeitos que ninguém conseguia replicar por décadas.
Pedais principais
- Yamaha SPX90 (rack): reverb e efeitos de modulação.
- Alesis Midiverb II e Quadraverb: mais reverb e efeitos.
- Boss FZ-2 Hyper Fuzz: o fuzz que definiu o som do MBV em "Loveless".
- EHX Small Clone: chorus pra espessura.
- Tremolo arm da Jazzmaster/Jaguar: não é pedal, mas é a peça central. Shields usa o tremolo arm constantemente enquanto toca acordes, criando aquele efeito "glide" característico.
Filosofia de timbre
Shields empilha camadas de efeito até criar texturas quase orquestrais. Reverb sobre reverb, distorção sobre chorus, feedback controlado — o resultado é um muro de som belo e caótico que influenciou shoegaze, dreampop e música alternativa por décadas.
Montando Seu "Pedalboard Inspirado" Acessível
Agora, a parte prática. Você não precisa gastar milhares pra ter sons inspirados nesses artistas. A chave é entender os tipos de efeito que cada um prioriza e encontrar equivalentes acessíveis.
Setup "Gilmour Acessível"
- Fuzz estilo Big Muff (diversas opções no mercado)
- Compressor simples
- Delay com controle de feedback e tempo
Setup "Mayer Acessível"
- Overdrive estilo Tube Screamer (como o [PRODUCT:overdrive-ts])
- Segundo overdrive mais transparente
- Reverb e tremolo
Setup "Edge Acessível"
- Delay digital com tap tempo (essencial)
- Segundo delay (analógico pra sons mais quentes)
- Reverb com shimmer
Setup "SRV Acessível"
- Tube Screamer ou equivalente
- Amp limpo com headroom
- Cordas grossas e atitude
Setup "Frusciante Acessível"
- Distorção estilo DS-2
- Fuzz
- Chorus e wah
O denominador comum
Olhando todos esses pedalboards, alguns padrões aparecem:
- Todo mundo usa algum tipo de overdrive/distorção. É o efeito mais universal.
- Delay aparece em quase todos os setups. Mesmo quem não é "guitarrista de delay" usa pelo menos um slapback ou ambiência.
- Modulação (chorus, phaser, flanger) adiciona dimensão. Pelo menos um efeito de modulação está presente na maioria.
- A [ordem dos pedais](/blog/ordem-pedais-pedalboard) importa. Todos esses guitarristas prestam atenção na sequência da cadeia de sinal.
Dica
Comece com três pedais essenciais: um overdrive, um delay e um efeito de modulação (chorus ou phaser). Com esses três, você cobre 80% dos sons que precisa. Adicione mais conforme seu estilo se define. Se busca versatilidade máxima num formato compacto, um multi-efeitos como o [PRODUCT:cube-baby] pode ser o ponto de partida ideal.
Lições Que Esses Pedalboards Ensinam
Depois de analisar todos esses setups, algumas verdades ficam claras:
Menos pode ser mais. SRV usava praticamente três pedais. Morello faz coisas insanas com cinco. Você não precisa de 20 pedais pra ter um som incrível.
O pedal sozinho não faz o som. Coloque o pedalboard completo do Gilmour na frente de alguém que não sabe tocar e o resultado vai ser ruído. O som está nas mãos, na dinâmica, no toque. Os pedais amplificam o que já está ali.
Cada guitarrista tem uma filosofia. Gilmour usa efeitos pra emoção. Edge usa pra complexidade rítmica. SRV usa pra empurrar o amp. Morello usa pra experimentação. Descubra pra que você usa efeitos e monte seu board ao redor disso.
Evolução é constante. Todos esses pedalboards mudaram ao longo dos anos. Nenhum desses guitarristas ficou preso ao mesmo setup pra sempre. Seu pedalboard também vai evoluir conforme você cresce como músico — e tudo bem. O processo de montar um pedalboard é contínuo, não um destino final.