As cordas são a parte mais barata que mais muda o som
Guitarristas gastam fortunas em pedais, amplificadores e captadores buscando o timbre perfeito — e esquecem que as cordas são o ponto de partida de tudo. São elas que vibram. São elas que os captadores "escutam". Cordas velhas e oxidadas matam o brilho de qualquer setup, não importa o quanto você investiu no resto.
Trocar as cordas regularmente e saber escolher o calibre e material certo para o seu estilo é uma das formas mais baratas e eficientes de melhorar seu som. Um jogo de cordas custa entre R$20 e R$80 e a diferença entre cordas novas e velhas é gritante.
Calibres (gauge): o que os números significam
O calibre das cordas é medido em milésimos de polegada. Quando alguém fala em "cordas 010", está se referindo à primeira corda (mi agudo) com 0.010 polegadas de diâmetro — cerca de 0,25mm.
Conjuntos mais comuns para guitarra elétrica
- Extra Light (008): .008 .010 .015 .021 .030 .038
- Super Light (009): .009 .011 .016 .024 .032 .042
- Light / Regular (010): .010 .013 .017 .026 .036 .046
- Medium (011): .011 .014 .018 .028 .038 .049
- Heavy (012): .012 .016 .020 .032 .042 .054
- Hybrid (009-046): .009 .011 .016 .026 .036 .046 — cordas agudas finas + graves grossas
Como o calibre afeta a tocabilidade
Cordas mais finas (008-009): - Mais fáceis de pressionar contra os trastes - Bends são mais leves — exigem menos força - Menos tensão no braço da guitarra - Ideais para iniciantes e estilos que usam muito bending - Podem "quebrar" com mais facilidade sob ataque agressivo
Cordas mais grossas (011-012): - Exigem mais força para pressionar e fazer bends - Mais tensão no braço (pode precisar ajustar o tensor/truss rod) - Maior volume acústico — a corda vibra com mais energia - Timbre mais encorpado e graves mais firmes - Sustain geralmente maior
O ponto médio (010): O calibre .010-.046 é o padrão da indústria e o mais vendido mundialmente. Oferece um equilíbrio entre tocabilidade e corpo tonal. Se você nunca usou outro calibre, provavelmente está usando 010.
Dica
Se você está começando, 009 é uma boa escolha — poupa seus dedos enquanto você desenvolve calos e força. Depois de alguns meses, experimente 010. A diferença de tensão é sutil, mas o ganho tonal é perceptível.
Calibre e afinação
O calibre das cordas está diretamente ligado à afinação:
- Afinação padrão (E standard): 009 a 011 funcionam bem
- Drop D ou Eb: 010 a 011 mantêm boa tensão
- Drop C ou D standard: 011 a 012 para que as cordas graves não fiquem "bambas"
- Drop B ou mais baixo: 012+ ou conjuntos específicos para afinações baixas (como Ernie Ball Not Even Slinky .012-.056)
Afinar abaixo do padrão com cordas muito finas resulta em cordas frouxas que trastejam, perdem sustain e são difíceis de controlar. Para afinações alternativas baixas, cordas mais grossas são necessidade, não preferência.
Materiais: o que muda no som
Nickel-plated steel (aço niquelado)
O material mais comum para cordas de guitarra elétrica. Uma alma de aço coberta com enrolamento de aço niquelado.
- Som equilibrado: brilho presente mas não exagerado, bons médios
- Sensação suave: o níquel é confortável nos dedos
- Durabilidade média: oxidam normalmente com suor e umidade
- Magnetismo bom: boa interação com captadores magnéticos
Marcas: D'Addario XL, Ernie Ball Slinky, GHS Boomers — praticamente toda marca oferece essa opção.
Pure nickel (níquel puro)
Enrolamento de níquel puro (sem aço). O material usado nas cordas originais dos anos 50 e 60.
- Som mais quente e vintage: menos brilho que nickel-plated, médios mais proeminentes
- Excelente para blues e classic rock: aquele timbre "old school"
- Menos output magnético: por ter menos aço, o sinal captado é levemente mais fraco
- Sensação mais macia: mais confortáveis que nickel-plated
Marcas: D'Addario Pure Nickel, Ernie Ball Classic Rock'n'Roll, Fender Pure Nickel.
Stainless steel (aço inoxidável)
Enrolamento de aço inoxidável puro.
- Som brilhante e agressivo: mais agudos e presença que qualquer outro material
- Extremamente durável: resiste muito mais à corrosão e ao suor ácido
- Mais áspero nos dedos: pode causar desgaste acelerado nos trastes (discutível)
- Ótimo para metal e rock pesado: o brilho corta qualquer mix
Marcas: D'Addario ProSteels, DR Hi-Beams, Ernie Ball Stainless Steel.
Cordas revestidas (coated)
Cordas com uma camada microscópica de polímero (teflon ou similar) que protege contra suor, oleosidade e oxidação.
- Durabilidade excepcional: duram 3 a 5 vezes mais que cordas convencionais
- Brilho preservado por mais tempo: mantêm o som de cordas novas por semanas
- Sensação ligeiramente diferente: alguns guitarristas notam uma textura "escorregadia"
- Preço mais alto: custam 2 a 3 vezes mais que cordas comuns
- Menos brilho inicial: o revestimento atenua levemente os agudos mais altos
A Elixir domina esse mercado, com as linhas Optiweb (mais natural), Nanoweb (equilíbrio) e Polyweb (mais quente, revestimento mais grosso). D'Addario XT e Ernie Ball Paradigm são concorrentes.
Nota
Para quem tem suor ácido (que oxida cordas rapidamente), cordas revestidas não são luxo — são necessidade. Se suas cordas morrem em menos de uma semana, coated strings vão economizar dinheiro a longo prazo.
Construção das cordas: plain vs wound
As três primeiras cordas (Mi agudo, Si, Sol) são plain — um fio de aço sólido sem enrolamento. As três últimas (Ré, Lá, Mi grave) são wound — um núcleo de aço com enrolamento externo.
A terceira corda (Sol) é um caso especial. Em conjuntos mais pesados (011+), ela pode vir wound (enrolada), o que muda significativamente o timbre e a tocabilidade nessa corda. Wound G tem mais corpo e menos propensão a desafinar em bends, mas perde aquele brilho articulado da plain G.
Tipos de enrolamento
- Roundwound: enrolamento com fio de seção circular. O padrão para guitarra elétrica. Textura com relevos nas cordas graves
- Flatwound: enrolamento com fio de seção plana/retangular. Superfície lisa, som escuro e macio. Usado em jazz e guitarras hollow/semi-hollow
- Halfwound / Groundwound: roundwound com a superfície polida. Meio-termo entre as duas anteriores
Quando trocar as cordas
Não existe um prazo fixo — depende de quanto você toca, composição do seu suor, ambiente e cuidados. Mas existem sinais claros:
Indicadores visuais
- Descoloração: cordas que eram prateadas e agora estão escuras ou manchadas
- Oxidação visível: pontos de ferrugem ou regiões ásperas ao toque
- Marcas de traste: sulcos visíveis nas cordas onde elas tocam os trastes
Indicadores sonoros
- Perda de brilho: o som fica opaco, sem aquele "zing" das cordas novas
- Afinação instável: cordas velhas têm mais dificuldade para manter a afinação
- Entonação ruim: a nota no traste 12 não bate com o harmônico natural — cordas desgastadas perdem uniformidade
Indicadores táteis
- Aspereza: a superfície das cordas fica rugosa e desagradável
- Rigidez: cordas oxidadas perdem flexibilidade
Frequência sugerida
- Tocando todos os dias: a cada 1-2 semanas (convencionais) ou 4-8 semanas (coated)
- Tocando 3-4 vezes por semana: a cada 2-4 semanas (convencionais) ou 6-12 semanas (coated)
- Tocando ocasionalmente: a cada 1-2 meses (convencionais) ou 3-4 meses (coated)
- Antes de shows e gravações: sempre coloque cordas novas — mas com pelo menos 24 horas de antecedência para elas "assentarem"
Dicas para prolongar a vida das cordas
- Lave as mãos antes de tocar: suor, oleosidade e sujeira são os maiores inimigos das cordas
- Limpe as cordas depois de tocar: passe um pano seco ou com limpador de cordas (Fast Fret, GHS Fast Fret)
- Guarde a guitarra no case ou bag: protege contra umidade e poeira
- Use um desumidificador se mora em região muito úmida
- Considere cordas revestidas se seu suor é especialmente ácido
Calibre e captadores: a interação
O calibre das cordas afeta diretamente a resposta dos captadores magnéticos. Cordas mais grossas contêm mais massa de metal vibrando no campo magnético, o que teoricamente produz um sinal mais forte. Na prática, a diferença é sutil — mas é real.
Com o [PRODUCT:cube-baby], por exemplo, a simulação de preamp e IR Cabinet responde a essas nuances. Cordas mais pesadas tendem a produzir um sinal de entrada mais encorpado, que interage de forma diferente com os modelos de amp e efeitos. Vale a pena experimentar diferentes calibres e ajustar os presets de acordo.
Marcas populares no Brasil
- D'Addario: a mais vendida mundialmente. Qualidade consistente, boa variedade de materiais e calibres
- Ernie Ball: preferida de muitos profissionais. Slinky é uma das linhas mais icônicas
- Elixir: líder em cordas revestidas. Custo alto, mas durabilidade excepcional
- NIG: marca brasileira com excelente custo-benefício. Qualidade surpreendente pelo preço
- SG: outra marca brasileira confiável, especialmente popular em conjuntos de entrada
- GHS: americana, com a linha Boomers sendo referência em nickel-plated steel
- DR Strings: conhecida pela consistência e variedades como Tite-Fit e Pure Blues
Dica
Não fique preso a uma única marca ou calibre. Compre 2-3 conjuntos diferentes e teste durante algumas semanas cada. A diferença entre marcas de mesmo material e calibre é sutil, mas a diferença entre materiais (nickel vs stainless vs coated) é bem perceptível.
Resumo prático
- Iniciante? Comece com 009 nickel-plated de qualquer marca confiável
- Blues/rock? 010 nickel-plated ou pure nickel
- Metal com afinação baixa? 011+ stainless steel ou nickel-plated
- Jazz? 011-012 flatwound
- Suor ácido que mata cordas rápido? Elixir Optiweb ou D'Addario XT
- Orçamento apertado? NIG ou SG brasileiras no calibre que preferir
Cordas são consumíveis — não tem como escapar da troca regular. Mas escolher o conjunto certo para o seu estilo e manter um hábito de cuidado faz toda a diferença na experiência de tocar e no timbre final.