Sua primeira guitarra vai definir sua relação com o instrumento
A escolha da primeira guitarra elétrica é uma decisão que carrega mais peso do que parece. Não é só uma questão de timbre ou estética — é sobre conforto, motivação e praticidade. Uma guitarra desconfortável faz você tocar menos. Uma guitarra que não fica afinada frustra rápido. Uma guitarra bonita que você adora olhar? Essa te faz pegar o instrumento todo dia.
Não existe "a melhor guitarra para iniciante" universal. Existe a melhor guitarra para você, considerando seu estilo musical, tamanho das mãos, orçamento e preferências pessoais. O objetivo aqui é te dar todas as informações para que essa escolha seja consciente.
Tipos de corpo (body shapes)
O formato do corpo da guitarra não é apenas cosmético — ele influencia peso, equilíbrio, acesso às casas agudas e, em algum grau, o timbre do instrumento.
Stratocaster (Strat)
O design mais popular da história, criado pela Fender em 1954. Características:
- Corpo contornado: encaixe confortável no corpo, com chanfro na parte superior (arm contour) e na barriga (belly cut)
- 3 captadores single coil: versatilidade tonal enorme, do clean cristalino ao crunch
- Ponte tremolo: permite efeitos de vibrato com a alavanca
- Braço parafusado: facilita manutenção e ajustes
- Peso moderado: geralmente entre 3,2 e 3,6 kg
O timbre Strat é brilhante, articulado e cheio de "quack" (aquele som característico das posições 2 e 4 do seletor). Funciona bem para blues, rock, funk, country, pop e praticamente qualquer coisa que não exija distorção extrema.
Bom para: versatilidade, conforto físico, quem não tem certeza do estilo que quer tocar.
Telecaster (Tele)
A primeira guitarra de corpo sólido de sucesso, também da Fender (1950). Mais simples que a Strat:
- Corpo slab (sem contornos): formato mais angular e "bruto"
- 2 captadores single coil: bridge brilhante e cortante, neck quente e encorpado
- Ponte fixa: melhor estabilidade de afinação, mais sustain
- Braço parafusado: mesmo sistema da Strat
- Peso leve a moderado: entre 3,0 e 3,5 kg
O timbre Tele é direto, honesto e twangy. O captador de bridge tem aquele "snap" que corta qualquer mix. É a guitarra preferida de guitarristas de country, indie rock, punk e blues — mas é tão versátil que aparece em qualquer gênero.
Bom para: quem quer simplicidade, twang, e uma guitarra que funciona sem frescura.
Les Paul (LP)
O design icônico da Gibson (1952). Completamente diferente das Fenders:
- Corpo pesado de mogno com tampo arqueado de maple: peso entre 3,8 e 4,5 kg
- 2 captadores humbucker: som gordo, encorpado, com menos ruído que single coils
- Ponte fixa (Tune-o-matic): excelente sustain e estabilidade
- Braço colado: junção do braço ao corpo por cola, sem parafusos
- Escala mais curta (24.75"): menor tensão nas cordas, mais fácil de fazer bends
O timbre Les Paul é quente, gordo e potente. É a guitarra do rock clássico, hard rock e blues elétrico. Pense em Slash, Jimmy Page, Peter Green, Gary Moore.
Bom para: rock, blues, jazz, quem prefere humbuckers e não se importa com peso extra.
SG
Criada pela Gibson como substituta da Les Paul em 1961. Compartilha muitas características:
- Corpo fino e leve: significativamente mais leve que a Les Paul (2,7-3,2 kg)
- 2 captadores humbucker: mesmo tipo de som gordo
- Duplo cutaway profundo: acesso total às casas agudas
- Braço colado: mesmo tipo de junção da Les Paul
- Equilíbrio com tendência a neck dive: o corpo leve faz o braço pesar mais
O timbre é parecido com a Les Paul, mas um pouco mais agressivo e médio-agudo, por causa do corpo mais fino. Angus Young do AC/DC é o usuário mais famoso.
Bom para: rock, punk, quem quer som de humbucker mas não quer carregar peso.
Superstrat
Guitarras que combinam o corpo Stratocaster com características de alta performance:
- Braço fino e rápido: perfil C fino ou D
- Captador humbucker na ponte + single coils no braço/meio: configuração HSS ou HSH
- Ponte Floyd Rose ou similar: tremolo com trava, permite divebombs extremos
- 24 trastes: duas oitavas completas
- Raio de escala composto: mais plano nas casas agudas para bends sem buzz
Marcas como Ibanez, Jackson, Schecter e ESP dominam esse segmento. São guitarras feitas para velocidade e técnica.
Bom para: metal, shred, rock progressivo, quem prioriza velocidade e acesso às casas agudas.
Nota
Não escolha uma guitarra só pela aparência do guitarrista que você admira. Toque cada formato e sinta qual encaixa melhor no seu corpo. Uma Les Paul pode ser desconfortável para alguém de porte menor, assim como uma SG pode ser instável no colo de quem toca sentado.
Captadores: single coil vs humbucker
Os captadores são os "microfones" da guitarra elétrica. Eles transformam a vibração das cordas em sinal elétrico. O tipo de captador é o fator que mais influencia o timbre.
Single Coil
Uma única bobina de fio de cobre enrolada em volta de ímãs. Características:
- Som brilhante e articulado: ótima definição de notas individuais
- Dinâmica expressiva: responde muito bem a variações de toque
- Ruído (hum): por natureza, single coils captam interferência eletromagnética — aquele zumbido de 60Hz
- Menos saída (output): sinal mais fraco, o que pode ser vantagem para sons limpos
Humbucker
Duas bobinas lado a lado, com polaridades invertidas. Inventado para cancelar o hum:
- Som gordo e encorpado: mais graves e médios, menos brilho que single coils
- Silencioso: o cancelamento de ruído elimina praticamente todo o hum
- Mais saída: sinal mais forte, ideal para saturar amplificadores e pedais de drive
- Menos articulação: a resposta é mais "comprimida" comparada a single coils
P90
Um meio-termo entre single coil e humbucker:
- Bobina única, mas mais larga: mais saída que um single coil convencional
- Timbre agressivo e cru: ótimo para blues, punk e rock alternativo
- Algum ruído: como é single coil, tem hum (mas menos que Strat/Tele pickups)
Para saber mais sobre cada tipo, confira nosso guia completo de captadores.
Dica
Se você toca estilos variados e não quer ficar limitado, procure guitarras com configuração HSS (humbucker na ponte + single coils no meio e braço). É a combinação mais versátil que existe — cobre de jazz a metal.
O braço: perfil e escala
Depois dos captadores, o braço é o fator que mais impacta a experiência de tocar.
Perfis de braço
- C (Standard): o mais comum e confortável para a maioria das mãos. Arredondado e uniforme
- D (Modern): mais achatado, permite movimentação rápida. Popular em guitarras de alta performance
- V: formato em V, confortável para o polegar apoiado por cima do braço (estilo blues/rock clássico)
- U (Baseball bat): grosso e arredondado. Encontrado em guitarras vintage. Pode ser cansativo para mãos menores
Comprimento de escala
- 24.75" (escala curta): Gibson, Epiphone. Menor tensão, bends mais fáceis, timbre mais quente
- 25.5" (escala longa): Fender, Squier. Mais tensão, mais brilho, mais definição
- Multiscala: diferentes comprimentos para cordas graves e agudas. Mais comum em guitarras de 7+ cordas
Material da escala (fretboard)
- Maple (bordo): brilhante e rápido, superfície clara e lacada
- Rosewood (jacarandá): quente e suave, superfície escura e oleosa
- Ebony (ébano): rápido e brilhante como maple, mas com toque suave como rosewood
- Pau-ferro: similar ao rosewood, usado como alternativa sustentável
Raio da escala
- 7.25": bem curvado, confortável para acordes, mas bends podem travar nas casas agudas
- 9.5": equilíbrio entre conforto e performance, o padrão moderno da Fender
- 12": mais plano, ótimo para bends e solos rápidos
- Composto (9.5" a 14"): combina curvatura nas primeiras casas com planeza nas agudas
Madeiras: o quanto realmente importa?
A discussão sobre o impacto das madeiras no timbre de guitarras de corpo sólido é eterna — e bem polêmica. Mas algumas generalidades são razoavelmente aceitas:
Corpo
- Alder (amieiro): equilibrado, versátil. Usado em Strats e Teles
- Ash (freixo): brilhante com graves firmes. Swamp ash é mais leve e ressonante
- Basswood (tília): leve, com médios pronunciados. Popular em guitarras japonesas
- Mahogany (mogno): quente, com médios gordos. A base das Gibson
- Poplar (álamo): similar ao alder, usado em modelos de entrada
Observação honesta
Em guitarras de corpo sólido com captadores magnéticos, os captadores e o amplificador/pedais têm muito mais impacto no timbre do que a madeira. Um Strat de alder e um de basswood, com os mesmos captadores e ajustes, soam muito mais parecidos do que diferentes.
Para iniciantes, não se preocupe demais com madeiras. Priorize conforto, captadores e construção geral.
Orçamento: quanto investir?
Faixa de entrada (R$800 - R$1.500)
Marcas como Squier (linha Fender), Epiphone (linha Gibson), Tagima e Strinberg oferecem instrumentos surpreendentemente bons nessa faixa. A qualidade das guitarras de entrada melhorou drasticamente nas últimas décadas.
O que esperar: bom acabamento, captadores razoáveis, hardware funcional. Pode precisar de um setup profissional (ajuste de braço, altura das cordas, afinação da ponte).
Faixa intermediária (R$1.500 - R$3.500)
Aqui a qualidade dá um salto significativo: melhores captadores, melhor acabamento de trastes, hardware mais estável, madeiras selecionadas. Instrumentos nessa faixa servem para tocar profissionalmente.
Faixa avançada (R$3.500+)
Guitarras com captadores premium, construção impecável e materiais nobres. A diferença para a faixa intermediária é mais sutil — lei de retornos decrescentes.
Dica
Reserve parte do orçamento para um bom setup profissional (R$100-200), um afinador confiável e um cabo de qualidade. Uma guitarra barata bem ajustada toca melhor que uma guitarra cara mal regulada.
O que testar na loja
Quando for experimentar guitarras, preste atenção nestes pontos:
- Conforto do braço: segure a guitarra e mova a mão pelo braço inteiro. Sente algum desconforto? As pontas dos trastes estão ásperas?
- Peso e equilíbrio: coloque a correia e fique de pé. A guitarra equilibra bem ou o braço cai (neck dive)?
- Afinação: afine a guitarra e toque um acorde em diferentes regiões. Ainda soa afinado na 12ª casa?
- Ação das cordas: as cordas estão muito altas (difícil de pressionar) ou muito baixas (trastejando)?
- Captadores: teste cada posição do seletor de captadores com o amp limpo e com distorção
- Potenciômetros: gire os knobs de volume e tone. Funcionam suavemente, sem ruídos?
- Estética: parece bobagem, mas se você achar a guitarra bonita, vai querer pegá-la mais vezes. Motivação importa
Primeiro setup: guitarra + amplificador
Sua primeira guitarra precisa de algo para produzir som. As opções para iniciantes:
- Amplificador combo pequeno (15-30W): a opção clássica. Marcas como Fender, Marshall, Orange e Boss oferecem combos acessíveis com sons decentes
- Multi-efeitos com saída para fone: o [PRODUCT:cube-baby] é uma opção excelente para quem mora em apartamento. Conecte o fone e toque a qualquer hora, com acesso a vários timbres de amp e efeitos
- Interface de áudio + plugins: se você tem um computador razoável, uma interface USB básica + plugins gratuitos (como o Guitar Rig Player ou LePou) é um setup de gravação completo por pouco dinheiro
Resumo: como decidir
Se depois de tudo isso você ainda está em dúvida, aqui vai um atalho prático:
- Não sabe o estilo que quer tocar? Stratocaster ou Superstrat HSS — máxima versatilidade
- Blues, rock clássico? Stratocaster ou Les Paul/SG
- Metal, hard rock? Les Paul, SG ou Superstrat com humbucker
- Country, indie, punk? Telecaster
- Quer gastar pouco e ter qualidade? Squier, Epiphone ou Tagima na faixa de R$1.000-1.500
- Não pode fazer barulho em casa? Qualquer guitarra + multi-efeitos com saída para fone
A guitarra perfeita é aquela que faz você querer tocar todos os dias. Conforto e inspiração vêm antes de especificações técnicas. Vá à loja, toque várias, e leve para casa aquela que fez seus olhos brilharem.