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Guias

Guia de Captadores: Single Coil, Humbucker e P90

8 de janeiro de 20269 min de leitura
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O captador transforma vibração em música

Tire os captadores de uma guitarra elétrica e o que sobra é basicamente um pedaço de madeira com cordas. São os captadores — esses blocos magnéticos aparentemente simples posicionados sob as cordas — que captam as vibrações e as transformam no sinal elétrico que chega ao amplificador.

O princípio é elegantemente simples: um ímã permanente cria um campo magnético ao redor das cordas de aço. Quando a corda vibra, ela perturba esse campo magnético. Essa perturbação induz uma corrente elétrica na bobina de fio de cobre enrolada ao redor do ímã. Essa corrente é o sinal de áudio — fraco, mas contendo toda a informação tonal da vibração da corda.

A forma como esse mecanismo é construído — tipo de ímã, quantidade de espiras de fio, diâmetro da bobina, número de bobinas — define as características sonoras do captador. E é por isso que um single coil e um humbucker soam tão diferentes.

Single Coil: brilho e definição

O captador de bobina simples (single coil) é o design original, inventado nos anos 1930 e popularizado pela Fender na década de 1950. Uma única bobina de fio de cobre, geralmente com 7.000 a 8.500 espiras, enrolada em volta de seis ímãs cilíndricos (pole pieces) — um para cada corda.

Características sonoras

  • Brilho e clareza: a resposta em frequência enfatiza agudos e médio-agudos, produzindo um som cristalino e articulado
  • Definição de notas: excelente separação entre notas em acordes. Cada corda é ouvida com clareza
  • Dinâmica: reage intensamente a variações de toque — toque leve produz som suave, ataque forte produz snap
  • "Quack" e "twang": aquele som característico das posições intermediárias (2 e 4 no Strat), impossível de reproduzir com humbuckers
  • Output moderado: sinal de saída tipicamente entre 5-8 kOhm de resistência DC

O problema do ruído

O calcanhar de Aquiles do single coil é o hum — um zumbido constante de 60Hz (no Brasil) causado pela interferência eletromagnética. Lâmpadas fluorescentes, dimmers, monitores CRT e transformadores próximos agravam o problema.

O ruído acontece porque a bobina única, além de captar a vibração das cordas, também funciona como antena para campos eletromagnéticos externos. É um trade-off: a mesma sensibilidade que dá ao single coil sua expressividade também o torna vulnerável a interferência.

Modelos icônicos

  • Fender Strat pickup: o single coil por definição. Alnico 5, ~6.2 kOhm. Presente em 90% das Stratocasters
  • Fender Tele bridge pickup: mais hot e agressivo, com a base metálica que contribui para o twang
  • Fender Tele neck pickup: coberto por uma capa metálica, som mais quente e redondo
  • Jazzmaster pickup: bobina mais larga e achatada, som mais gordo que um Strat pickup convencional

Single coils noiseless

Para resolver o problema do ruído sem perder (completamente) o caráter single coil, existem os noiseless pickups. São tecnicamente dois single coils empilhados, com cancelamento de ruído similar ao humbucker, mas mantendo largura e formato de single coil.

Fender (N3, N4, Ultra Noiseless), DiMarzio (Area series) e Lace (Sensor series) oferecem opções de qualidade. O som é muito próximo de um single coil verdadeiro, com 90-95% do ruído eliminado.

Humbucker: potência e silêncio

Seth Lover, engenheiro da Gibson, patenteou o humbucker em 1955. O nome vem de "hum-bucking" — cancelamento de hum. A ideia foi colocar duas bobinas lado a lado, com polaridade magnética e enrolamento invertidos entre si.

O resultado dessa inversão: o sinal da corda (que é diferente em cada bobina por causa do posicionamento) se soma, enquanto o ruído eletromagnético (que é igual em ambas) se cancela. Genial na simplicidade.

Características sonoras

  • Corpo e peso: a soma das duas bobinas produz um sinal com mais graves e médios graves
  • Saída mais alta: tipicamente 7-16 kOhm de resistência DC, significativamente mais que single coils
  • Compressão natural: o sinal mais forte e a largura da bobina dupla produzem uma resposta mais "comprimida"
  • Menos articulação nas altas frequências: os agudos são atenuados comparados a single coils
  • Sustain prolongado: o campo magnético mais forte e a saída elevada contribuem para mais sustain percebido

Variações de humbucker

Nem todo humbucker soa igual. As variações são enormes:

  • PAF (Patent Applied For): o humbucker original da Gibson. Output moderado (~7.5 kOhm), som vintage, equilibrado. Referência de timbre para blues e classic rock
  • High output: mais espiras de fio = mais saída e mais saturação. Ideais para metal e hard rock. DiMarzio Super Distortion, Seymour Duncan JB
  • Vintage output: réplicas dos PAFs originais com output baixo a moderado. Gibson '57 Classic, Seymour Duncan Seth Lover
  • Ceramic vs Alnico: ímãs de cerâmica produzem som mais brilhante e agressivo; Alnico (2, 4, 5) produz sons mais quentes e vintage

Coil split e coil tap

Muitos humbuckers modernos oferecem a opção de coil split — desativar uma das bobinas via chave ou push-pull no potenciômetro, transformando o humbucker em algo próximo de um single coil. Não soa idêntico a um single coil verdadeiro (a bobina remanescente tem características diferentes), mas adiciona versatilidade.

Coil tap é diferente: acessa uma derivação no meio do enrolamento da bobina, reduzindo o output sem desativar uma bobina inteira. O resultado é um som com menos ganho, mas ainda usando as duas bobinas.

Dica

Se você quer um humbucker com coil split que realmente soe bem como single coil, procure modelos projetados especificamente para isso, como o Seymour Duncan P-Rails ou o DiMarzio Chopper. Humbuckers convencionais em coil split podem soar fracos e desbalanceados.

P90: o meio-termo esquecido

Antes do humbucker existir, a Gibson já tinha uma alternativa ao single coil tradicional: o P90, lançado em 1946. Tecnicamente é um single coil, mas com uma bobina significativamente mais larga e mais rasa que os captadores Fender.

Características sonoras

  • Agressividade: mais output que single coils Fender, com médios pronunciados e crus
  • Grit: um "rosnado" natural que responde bem a overdrive, sem precisar de muita saturação
  • Clareza com atitude: mantém boa definição de notas, mas com mais "meat" que um single coil convencional
  • Ruído: como é single coil, tem hum. Geralmente menos que um Strat pickup por causa da largura da bobina, mas mais que um humbucker

Formatos de P90

  • Soapbar (barra de sabão): formato retangular com parafusos de montagem visíveis. O visual clássico do P90
  • Dog ear (orelha de cachorro): com abas laterais para montagem. Comum em guitarras semi-hollow

P90 em que contexto?

P90s brilham em estilos que precisam de agressividade sem a compressão do humbucker. Punk rock, blues elétrico, garage rock, grunge, rock alternativo — todos se beneficiam do caráter cru e direto do P90. Pete Townshend (The Who), Billie Joe Armstrong (Green Day) e Leslie West (Mountain) são usuários famosos.

Ativo vs Passivo

Até agora falamos de captadores passivos — que geram sinal apenas pela indução eletromagnética, sem necessidade de alimentação externa. Mas existe outra categoria: os captadores ativos.

Captadores ativos

Usam um pré-amplificador embutido alimentado por bateria (geralmente 9V). Esse pré-amp aumenta o sinal e permite usar bobinas com menos espiras de fio.

Vantagens dos ativos: - Sinal de saída alto e consistente - Ruído extremamente baixo - Resposta em frequência plana e previsível - Funcionam bem com cabos longos (sem perda de agudos)

Desvantagens dos ativos: - Necessidade de bateria (dura 1.000-3.000 horas, mas pode acabar no pior momento) - Menos resposta dinâmica ao toque - Headroom limitado — podem clipar se o sinal de entrada for muito forte - Som "estéril" para alguns ouvidos — falta a complexidade harmônica dos passivos

A EMG é a marca mais associada a captadores ativos, com os modelos 81 (bridge, agressivo) e 85 (neck, quente) sendo praticamente padrão em guitarras de metal. Fishman Fluence é uma alternativa mais recente que oferece múltiplas voicings em um único captador ativo.

Quando escolher ativo?

  • Metal extremo com afinações baixas: o sinal limpo e poderoso dos ativos mantém definição em drop tunings
  • Situações com muito ruído eletromagnético (palcos com iluminação intensa)
  • Quando você quer consistência absoluta de timbre

Quando escolher passivo?

  • Qualquer estilo que valorize dinâmica e expressividade
  • Blues, jazz, rock, country, funk — praticamente tudo fora do metal mais pesado
  • Se você gosta de controlar o timbre pelo volume da guitarra (captadores passivos limpam lindamente quando você abaixa o volume)

Nota

A escolha entre ativo e passivo é pessoal, não técnica. Muitos guitarristas de metal usam passivos (Slash, Kirk Hammett com seus EMGs trocados por Seymour Duncans), e guitarristas de jazz usam ativos. Não se prenda a convenções.

Posição do captador importa

O mesmo captador soa diferente dependendo de onde está posicionado no corpo:

Posição de bridge (ponte)

Mais próximo da ponte, onde as cordas vibram com menos amplitude e mais tensão. Resultado:

  • Som mais brilhante e agudo
  • Mais "bite" e ataque
  • Menos graves
  • Ideal para riffs, solos com definição e timbres com distorção

Posição de neck (braço)

Mais próximo do braço, onde as cordas vibram com mais amplitude. Resultado:

  • Som mais quente e escuro
  • Mais graves e médios
  • Ideal para solos melódicos, jazz, sons limpos encorpados
  • Com distorção, pode ficar "lamacento" se o captador tiver muito output

Posição do meio

Equilíbrio entre bridge e neck. Muito usada em Stratocasters (posição 2 e 4 do seletor combinam meio + bridge ou meio + neck, produzindo o famoso "quack").

Como captadores interagem com pedais

A saída e o caráter do seu captador afetam diretamente como pedais de drive respondem. Single coils com baixa saída empurram menos o front-end de um overdrive, produzindo uma saturação mais leve e dinâmica. Humbuckers de alta saída saturam o pedal com mais facilidade, produzindo um som mais comprimido e pesado.

O [PRODUCT:overdrive-ts] (tipo Tube Screamer) é um exemplo clássico: com single coils, o resultado é um crunch bluesy e articulado. Com humbuckers, o mesmo pedal produz um drive mais gordo e saturado. Os dois resultados são válidos — depende do que você busca.

Um pedal como o [PRODUCT:overdrive-blues] responde de forma diferente novamente: seu circuito é projetado para preservar mais a dinâmica do captador, então a diferença entre single coil e humbucker fica ainda mais evidente.

Dica

Se você troca frequentemente entre guitarras com diferentes tipos de captadores, considere ter um pedal de boost com controle de ganho. Ele permite compensar a diferença de output entre single coils e humbuckers, mantendo o nível de saturação consistente no seu overdrive principal.

Escolhendo captadores: guia prático

Se você está pensando em trocar os captadores da sua guitarra, aqui vai um guia direto:

Quer mais brilho e definição? Troque humbuckers por single coils (requer roteamento na cavidade) ou use coil split.

Quer mais corpo e menos ruído? Troque single coils por humbuckers (requer roteamento) ou use single coils noiseless.

Quer mais agressividade sem perder articulação? P90 é a resposta.

Quer mais output para saturar pedais? Troque por captadores de maior saída (mais espiras, ímãs mais fortes).

Quer mais versatilidade? Considere humbuckers com coil split, ou configurações mistas (HSS, HSH).

A troca de captadores é uma das modificações mais impactantes que você pode fazer na sua guitarra — e geralmente a mais custo-efetiva. Um bom par de captadores custa entre R$300 e R$800 e transforma completamente o instrumento.

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