O que faz o legato soar tão diferente
Toque qualquer nota com a palheta. Agora, toque a mesma nota fazendo um hammer-on com a mão esquerda. Ouviu a diferença? A nota palhetada tem um ataque percussivo — aquele "click" da palheta na corda. A nota de hammer-on soa mais suave, mais fluida, quase como se estivesse derretendo na anterior.
Essa é a essência do legato: notas conectadas sem o ataque da palheta entre elas. Em vez de cada nota receber seu próprio golpe de palheta (como no alternate picking), as notas fluem umas nas outras, criadas pela força dos dedos da mão esquerda contra o braço da guitarra.
O resultado é um fraseado que parece líquido, como se as notas estivessem escorrendo pelo braço. É o som que define guitarristas como Joe Satriani, Allan Holdsworth, Brett Garsed e Guthrie Govan — músicos cujas frases parecem impossíveis de se tocar com palhetada convencional, porque de fato não usam palhetada convencional para boa parte delas.
Hammer-on e pull-off são as duas técnicas fundamentais que compõem o legato. Dominá-las abre portas para velocidade, fluidez e expressividade que a palhetada sozinha não oferece.
Hammer-on: o martelo
Hammer-on (literalmente "martelar") é o ato de pressionar uma corda contra o traste com força suficiente para que a nota soe sem precisar palhetar. O dedo "cai" sobre a corda como um martelo.
Técnica correta
- Toque a primeira nota com a palheta (ou com outro dedo que já esteja na corda)
- "Martele" o próximo dedo sobre a corda, atingindo o espaço entre os trastes com a ponta do dedo
- A nota deve soar com volume e clareza comparáveis à nota palhetada
Erros comuns
- Pressão insuficiente: o dedo pousa na corda em vez de martelar. O gesto precisa ser rápido e preciso, não gradual
- Posição errada do dedo: martelar longe do traste resulta em buzz ou nota abafada. Acerte logo atrás do traste metálico
- Dedo torto: a ponta do dedo deve cair perpendicular à corda. Dedos inclinados abafam cordas adjacentes
- Tensão excessiva no braço/antebraço: o movimento vem dos dedos, não do braço inteiro. Se seu antebraço está contraído, você está desperdiçando energia
Dica
Um bom teste: toque um hammer-on e grave com o celular. Ouça de volta. A nota do hammer-on deveria ter pelo menos 70-80% do volume da nota palhetada. Se está muito mais fraca, seu "martelo" precisa ser mais decisivo. Velocidade do golpe é mais importante que força bruta — pense em um chicote, não em um soco.
Pull-off: o puxão
Pull-off é o movimento inverso: em vez de martelar um dedo contra a corda, você puxa o dedo que está pressionando, puxando levemente a corda para o lado antes de soltar. Esse "puxão" faz a corda vibrar e soar a nota do dedo que estava posicionado embaixo.
Técnica correta
- Posicione dois dedos na mesma corda (por exemplo, indicador na 5ª casa e anelar na 7ª casa)
- Puxe o dedo de cima (anelar) para o lado, arrastando levemente a corda antes de liberar
- A nota do dedo inferior (indicador na 5ª casa) soa sem palhetada
A diferença crucial: puxar, não apenas levantar
O erro mais comum no pull-off é simplesmente levantar o dedo da corda. Se você apenas levanta, a corda quase não vibra e a nota sai fraca ou muda. O segredo é o movimento lateral: o dedo arrasta a corda levemente em direção ao chão antes de soltar, como se estivesse "beliscando" a corda por cima.
Pense em passar o dedo por uma corda de varal: seu dedo não sobe reto — ele puxa a corda para o lado e depois libera. É o mesmo princípio.
Erros comuns
- Levantar em vez de puxar: resultado é nota fraca ou silêncio
- Puxar demais: distorce a afinação e gasta energia desnecessária
- Dedo inferior não preparado: o dedo que vai soar precisa estar posicionado com firmeza antes do pull-off. Se estiver frouxo, a nota sai suja
- Tocar cordas adjacentes: o dedo que puxa pode acidentalmente tocar a corda de baixo — mantenha o movimento controlado
Exercícios progressivos
Exercício 1: Hammer-on com um dedo
Na 1ª corda: - Palhete a corda solta (Mi) - Hammer-on com o indicador na 1ª casa (Fá) - Palhete a corda solta novamente - Hammer-on com o indicador na 1ª casa - Repita
Faça o mesmo com cada dedo: médio (2ª casa), anelar (3ª casa), mindinho (4ª casa). Use metrônomo em 60 BPM, uma nota por batida. Foque em volume e clareza iguais entre nota palhetada e hammer-on.
Exercício 2: Pull-off com um dedo
Na 1ª corda: - Indicador na 1ª casa, palhete - Pull-off para a corda solta - Repita
Mesmo processo: médio (2ª casa → solta), anelar (3ª casa → solta), mindinho (4ª casa → solta). Atenção ao volume do pull-off — deve ser audível e claro.
Exercício 3: Combinando hammer-on e pull-off
Na 1ª corda, indicador na 5ª casa, anelar na 7ª casa: - Palhete a 5ª casa - Hammer-on na 7ª casa - Pull-off de volta para a 5ª casa - Hammer-on na 7ª casa - Pull-off para a 5ª casa - Continue sem palhetar novamente
O objetivo é manter as notas soando pelo maior tempo possível usando apenas hammer-ons e pull-offs. No início, o volume vai cair rapidamente. Com prática, você manterá o som por muitas repetições.
Exercício 4: Quatro dedos consecutivos
Na 1ª corda: - Palhete a 5ª casa (indicador) - Hammer-on 6ª casa (médio) - Hammer-on 7ª casa (anelar) - Hammer-on 8ª casa (mindinho) - Pull-off 7ª casa - Pull-off 6ª casa - Pull-off 5ª casa - Hammer-on 6ª casa... - Continue em loop
Esse exercício desenvolve a independência e a força de todos os quatro dedos. O mindinho é sempre o mais fraco — preste atenção extra nele.
Exercício 5: Legato em duas cordas
Agora estenda para duas cordas. Na 2ª corda: 5-6-7-8 (hammer-ons). Na 1ª corda: 5-6-7-8 (hammer-ons). Na transição de corda, palhete a primeira nota da nova corda. Depois, tente a transição sem palhetar — usando um hammer-on "de arremesso" para iniciar a vibração na nova corda.
Nota
A transição de corda no legato é o momento mais difícil. Existem duas abordagens: palhetar a primeira nota de cada corda (legato com palheta auxiliar — Joe Satriani faz isso) ou fazer hammer-ons "do nada" sem palheta na corda nova (legato puro — Allan Holdsworth fazia isso). Comece com a palheta auxiliar e evolua para o legato puro quando estiver confortável.
Legato em escalas
Quando você aplica hammer-on e pull-off a escalas completas, o legato ganha vida musical real. Em vez de palhetar cada nota da escala, você palheta apenas a primeira nota de cada corda e usa legato para o resto.
Exemplo: Pentatônica menor em Lá (posição 1)
6ª corda: palhete 5ª casa → hammer-on 8ª casa 5ª corda: palhete 5ª casa → hammer-on 7ª casa 4ª corda: palhete 5ª casa → hammer-on 7ª casa 3ª corda: palhete 5ª casa → hammer-on 7ª casa 2ª corda: palhete 5ª casa → hammer-on 8ª casa 1ª corda: palhete 5ª casa → hammer-on 8ª casa
Na descida: pull-offs. 1ª corda: palhete 8ª casa → pull-off 5ª casa. E assim por diante.
Compare o som dessa escala tocada com alternate picking puro e depois com legato. A versão legato soa mais suave, mais conectada, mais "cantada". A versão palhetada soa mais articulada e percussiva. Nenhuma é melhor — são texturas diferentes para situações diferentes.
Legato na escala maior e nos modos
O legato brilha especialmente em escalas de 3 notas por corda, onde cada corda tem uma sequência de hammer-on-hammer-on (subindo) ou pull-off-pull-off (descendo). Essa abordagem é fundamental para tocar modos gregos com fluidez — guitarristas como Satriani e Govan usam 3 notas por corda com legato extensivo.
Trills: hammer-on e pull-off em alta velocidade
Um trill é simplesmente um hammer-on e pull-off alternados rapidamente entre duas notas. É o ornamento mais básico do legato e aparece em praticamente todo solo de guitarra já gravado.
Como praticar trills
- Indicador na 5ª casa, anelar na 7ª casa, 1ª corda
- Palhete a 5ª casa
- Hammer-on na 7ª → pull-off para 5ª → hammer-on → pull-off → hammer-on...
- Continue o mais rápido que conseguir manter limpo
Pratique trills com cada combinação de dedos: - Indicador + médio (1-2): o mais fácil - Indicador + anelar (1-3): exige mais abertura - Indicador + mindinho (1-4): o mais difícil e o mais importante de desenvolver - Médio + anelar (2-3): surpreendentemente difícil pela falta de independência entre esses dedos - Médio + mindinho (2-4): desafiador - Anelar + mindinho (3-4): o mais fraco — desenvolva com paciência
Trills não são apenas exercícios — são ferramentas musicais. Um trill no final de uma frase de blues adiciona emoção. Um trill rápido no início de um solo chama a atenção. Stevie Ray Vaughan, B.B. King e Jimi Hendrix usavam trills constantemente.
Como o compressor potencializa o legato
Aqui entra um aliado que transforma o legato de bom a excelente: o compressor. O problema inerente do legato é a diferença de volume entre a nota palhetada (forte) e as notas de hammer-on e pull-off (mais fracas). Essa desigualdade faz o legato soar inconsistente, especialmente em velocidade.
O [PRODUCT:compressor] resolve isso. Ele pega os picos de volume (notas palhetadas) e os achata, enquanto levanta o volume das notas mais fracas (hammer-ons e pull-offs). O resultado: todas as notas soam com intensidade similar, e o legato ganha uma uniformidade profissional.
Configuração sugerida para legato
- Sustain / Ratio: médio a alto — você quer compressão suficiente para nivelar as dinâmicas
- Attack: rápido — para capturar o pico da palhetada imediatamente
- Level: ajuste para que o volume geral seja igual ao som sem compressor
- Tone: neutro ou levemente brilhante — para compensar a perda natural de agudos que a compressão pode causar
Joe Satriani usa compressor em praticamente todos os seus solos de legato. Allan Holdsworth também usava. Não é coincidência: o compressor é a ferramenta que permite o legato "impossível" desses guitarristas.
Combinado com o [PRODUCT:cube-baby] para acesso a diferentes timbres e simulações de amp, você tem um setup de prática completo para desenvolver legato com qualidade de som profissional.
Dica
Comece praticando legato SEM compressor primeiro. O compressor pode "mascarar" problemas técnicos — notas fracas que deveriam ser trabalhadas ficam artificialmente levantadas. Desenvolva a técnica pura primeiro. Quando seu legato estiver limpo e forte sem compressor, adicione-o para levar ao próximo nível.
Guitarristas referência em legato
Joe Satriani
O mestre do legato moderno. Músicas como "Always With Me, Always With You", "Satch Boogie" e "Summer Song" são masterclasses de como usar hammer-on e pull-off musicalmente. Satriani combina legato com palhetada de forma tão fluida que é difícil distinguir onde um termina e o outro começa.
Allan Holdsworth (1946-2017)
O guitarrista que levou o legato ao extremo absoluto. Holdsworth tocava com tão pouca palhetada que suas frases pareciam sopradas em vez de tangidas. Seu legato era tão limpo e uniforme que soava como um saxofone — essa era a intenção. Ouça "Road Games" e "Metal Fatigue".
Brett Garsed
Australiano que estudou com Holdsworth e desenvolveu um estilo de legato igualmente fluido. Suas frases cobrem o braço inteiro usando hammer-ons e pull-offs com velocidade e limpeza impressionantes.
Guthrie Govan
Combina legato com todas as outras técnicas existentes. Seu fraseado alterna entre legato, picking, tapping, slide e bends com naturalidade absoluta. Ouça "Fives" e "Wonderful Slippery Thing".
Steve Vai
Usa legato extensivamente em composições complexas. "For the Love of God" é uma das músicas mais expressivas já escritas para guitarra, com legato carregado de emoção em cada frase.
Legato vs. Picking: quando usar cada um
Legato e picking não são competidores — são complementos. Os melhores guitarristas usam os dois, escolhendo a técnica conforme o efeito desejado:
Use legato quando quiser: - Frases fluidas e "cantadas" - Velocidade com menos esforço da mão direita - Transições suaves entre notas - Frases longas que percorrem o braço - Clima etéreo ou líquido
Use picking quando quiser: - Ataque definido e percussivo - Articulação clara de cada nota - Ritmos precisos e "mecânicos" - Riffs com ataque pesado - Frases staccato
A maioria das situações musicais pede uma mistura dos dois. Uma frase que começa com picking agressivo e termina com legato suave cria um contraste expressivo poderoso. Desenvolva ambas as técnicas igualmente e você terá um vocabulário muito mais rico.
Se você já domina o básico do legato, o próximo passo natural é explorar o tapping — que é essencialmente um hammer-on feito com a mão direita. Combinando legato da mão esquerda com tapping da mão direita, as possibilidades se expandem exponencialmente. Também vale revisitar bends e vibrato, que combinados com legato criam frases extremamente expressivas — o segredo é integrar todas as técnicas num vocabulário coeso, onde cada recurso entra naturalmente quando a música pede.