O que é tapping e por que aprender
Em 1978, Eddie Van Halen subiu ao palco e tocou "Eruption". O mundo da guitarra nunca mais foi o mesmo. Aquelas cascatas de notas impossíveis vinham de uma técnica que Eddie não inventou, mas popularizou como ninguém: o tapping.
Tapping é a técnica de usar os dedos da mão direita (a mão da palheta) para "martelar" notas diretamente no braço da guitarra, da mesma forma que a mão esquerda faz hammer-ons. Isso libera possibilidades que seriam fisicamente impossíveis com apenas uma mão: intervalos enormes, arpejos velozes e frases que cobrem todo o braço da guitarra em frações de segundo.
A boa notícia é que o tapping básico não é tão difícil quanto parece. A base da técnica é o mesmo hammer-on e pull-off que você já conhece — só que agora com as duas mãos. Se você domina hammer-on e pull-off, já tem metade do caminho percorrido.
A mecânica básica do tapping
Posição da mão direita
A maioria dos guitarristas segura a palheta entre o polegar e o indicador e usa o dedo médio para o tapping. Assim, você pode alternar entre palhetada normal e tapping sem precisar guardar a palheta.
Outros guitarristas preferem segurar a palheta entre o médio e o polegar e usar o indicador para o tapping. Teste as duas formas e veja qual é mais confortável.
O gesto do tap
O dedo da mão direita "martela" a corda contra o traste com um movimento rápido e preciso — igual ao hammer-on da mão esquerda. A diferença é que, ao levantar o dedo, ele executa um pull-off, puxando levemente a corda para fazer a próxima nota soar.
Então o ciclo básico é: 1. Tap (mão direita martela a corda no braço) 2. Pull-off (mão direita puxa ao sair, ativando a nota da mão esquerda) 3. Hammer-on ou pull-off (mão esquerda continua a frase) 4. Repita
Dica
O tapping funciona melhor quando você acerta logo atrás do traste metálico, assim como no hammer-on normal. Mire na corda, não no espaço entre os trastes. A precisão do ponto de contato determina a limpeza da nota.
Primeiro exercício: o padrão Van Halen
O lick mais clássico de tapping de todos os tempos é surpreendentemente simples:
Na 1ª corda: - Mão esquerda: indicador na 5ª casa, mindinho na 8ª casa - Mão direita: dedo médio (ou indicador) na 12ª casa
A sequência: tap 12 → pull-off 8 → pull-off 5 → hammer-on 8 → tap 12 → pull-off 8 → pull-off 5...
Repita em loop. Quando estiver fluido, mova o tap da mão direita para outras casas (10ª, 14ª, 15ª) mantendo a mão esquerda no lugar. Cada posição do tap muda a nota aguda, criando melodias diferentes sobre a mesma base.
Esse padrão é a essência de "Eruption" e aparece em dezenas de solos clássicos. Domine-o e você já tem um recurso impressionante no seu arsenal.
Variação: mudando a mão esquerda
Mantenha o tap na 12ª casa e mova a mão esquerda: - 5ª e 8ª casas (Am) - 3ª e 7ª casas (C) - 5ª e 7ª casas (Am, diferente inversão) - 7ª e 10ª casas (Em)
Cada posição da mão esquerda muda o acorde implícito na frase. Combine essas posições seguindo uma progressão de acordes e você terá um solo de tapping completo.
Tapping com uma mão vs duas mãos
One-hand tapping (tapping simples)
O que descrevemos acima é o tapping simples: a mão direita toca uma nota enquanto a esquerda cuida das outras. É o estilo Van Halen, usado pela maioria dos guitarristas de rock.
Características: - Uma nota da mão direita + duas ou três da esquerda - Frases geralmente em uma corda por vez - Mais fácil de aprender - Perfeito para adicionar notas agudas a frases de legato
Two-hand tapping (tapping a duas mãos)
Aqui, ambas as mãos funcionam independentemente no braço, cada uma tocando suas próprias notas. Guitarristas como Stanley Jordan, Tosin Abasi (Animals as Leaders) e polyphia usam essa abordagem.
Características: - As duas mãos tocam notas independentes - Possibilidade de tocar melodia e acompanhamento simultaneamente - Muito mais difícil de coordenar - Expandese possibilidades harmônicas enormemente
O two-hand tapping é avançado e requer meses de prática dedicada. Comece com o tapping simples e só avance quando estiver confortável.
Nota
Se o two-hand tapping te interessa, estude a técnica de "touch guitar" de Stanley Jordan. Ele basicamente transformou a guitarra num piano usando exclusivamente tapping a duas mãos — cada mão cobre uma região do braço com total independência.
Tapping em arpejos
Uma das aplicações mais impressionantes do tapping é em arpejos. Em vez de tocar um arpejo usando sweep picking, você pode usar tapping para cobrir intervalos enormes em alta velocidade.
Arpejo de Am com tapping
Na 2ª corda: - Mão esquerda: 5ª casa (Mi) e 8ª casa (Dó) - Mão direita: 12ª casa (Lá)
Na 1ª corda: - Mão esquerda: 5ª casa (Lá) e 8ª casa (Dó) - Mão direita: 12ª casa (Mi)
Alterne entre as cordas para criar um arpejo que "flutua" entre registro grave e agudo. A distância entre as notas da mão esquerda e da mão direita cria um efeito que seria impossível de atingir com uma mão só.
Tapping percorrendo as cordas
Leve o conceito adiante: faça o padrão tap-pulloff-pulloff em cada corda, descendo da 1ª para a 6ª. Mude as notas da mão esquerda em cada corda para seguir um acorde. O resultado é um arpejo de tapping que percorre todo o range da guitarra.
O papel do compressor no tapping
O tapping tem um problema inerente: as notas da mão direita (tap) tendem a soar mais altas que as da mão esquerda (pull-offs e hammer-ons). Isso cria uma dinâmica irregular que pode soar desleixada.
A solução? Um compressor. O [PRODUCT:compressor] nivela o volume entre as notas fortes e fracas, fazendo com que taps, hammer-ons e pull-offs soem com intensidade uniforme. É quase como um "equalizador de volume" que pega os picos (taps) e suaviza, enquanto levanta as notas mais fracas (pull-offs).
Na prática, o compressor transforma tapping amador em tapping profissional. Eddie Van Halen usava compressor, assim como praticamente todo guitarrista que faz tapping extensivo. Não é trapaça — é a ferramenta certa para o trabalho.
Ajuste o compressor com: - Sustain/Ratio médio-alto: para nivelar bem as dinâmicas - Level ajustado: para compensar a perda de volume - Attack rápido: para capturar os picos do tapping
Combinado com o [PRODUCT:cube-baby] para ter acesso a diferentes timbres e efeitos, você terá uma setup de prática completa para desenvolver o tapping.
Abafamento: o segredo da limpeza
O maior desafio do tapping não é a técnica em si — é abafar as cordas que não devem soar. Com as duas mãos trabalhando no braço, não sobra ninguém para silenciar as cordas adjacentes, e qualquer vibração indesejada vira ruído.
Técnicas de abafamento
Faixa ou scrunchie no braço: Muitos guitarristas usam uma faixa de cabelo ou scrunchie na 1ª casa para abafar cordas soltas. Não é frescura — até guitarristas profissionais como Guthrie Govan usam.
Dedo indicador da mão esquerda: Quando possível, deite o indicador levemente sobre as cordas que não está usando. Ele abafa por contato sem pressionar contra o traste.
Palma da mão direita: A lateral da palma pode encostar levemente nas cordas graves enquanto o dedo faz tapping nas agudas.
Dica
Se você está tendo problemas com ruído no tapping, comece praticando sem distorção, com o som limpo. A distorção amplifica todo ruído indesejado. Quando o tapping estiver limpo no som limpo, adicione ganho gradualmente.
Exercícios progressivos
Nível 1: Tap simples em uma corda 1ª corda: tap 12 → pull-off 7 → pull-off 5 → hammer-on 7 → repita Metrônomo: 60 BPM em semicolcheias. Aumente 5 BPM por semana.
Nível 2: Tap com mudança de corda Faça o padrão do nível 1 na 1ª corda, depois na 2ª, depois na 3ª. Use as notas de um acorde de Am (ou outro qualquer) em cada corda.
Nível 3: Tap com deslocamento da mão direita Mão esquerda fixa (5ª e 8ª casas). Mão direita alterna entre 12ª, 10ª, 13ª e 15ª casas, criando uma melodia com os taps.
Nível 4: Arpejo de tapping Percorra as cordas de 1ª a 4ª (ou 6ª), fazendo tap-pulloff-pulloff em cada uma, com notas que formem um acorde. Comece lento — a coordenação entre mãos enquanto troca de cordas é o maior desafio.
Nível 5: Two-hand tapping básico Escolha uma corda. A mão esquerda faz uma sequência de hammer-ons (ex: 5-7-8). A mão direita faz taps em sequência (ex: 12-14-15). Alterne. Duas vozes independentes na mesma corda.
Referências para estudo
Ouça e assista esses guitarristas para entender o potencial do tapping:
- Eddie Van Halen — "Eruption", "Hot for Teacher". O pai do tapping moderno.
- Steve Vai — "Building the Church", "For the Love of God". Tapping com extrema musicalidade.
- Joe Satriani — "Midnight", "Satch Boogie". Tapping integrado ao fraseado geral.
- Stanley Jordan — "Stairway to Heaven" (versão solo). Two-hand tapping levado ao extremo.
- Tosin Abasi — "CAFO", "Wave of Babies". Tapping moderno com influências de jazz e metal progressivo.
- Polyphia (Tim Henson) — "G.O.A.T.", "Playing God". Tapping contemporâneo com influências de pop e hip-hop.
Cada um desses guitarristas usa o tapping de forma diferente, mostrando a versatilidade da técnica. Do blues-rock de Van Halen ao metal progressivo de Tosin Abasi, o tapping se adapta a qualquer estilo.
Combine o tapping com as outras técnicas essenciais que você está desenvolvendo, e use as escalas como mapa para escolher as notas. A técnica serve à música — nunca o contrário.