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Como Gravar Guitarra em Casa: Guia Para Home Studio

12 de janeiro de 202610 min de leitura
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Gravar guitarra nunca foi tão acessível

Até 15 anos atrás, gravar guitarra com qualidade profissional exigia um estúdio com tratamento acústico, microfones de milhares de reais, uma mesa de som analógica e conhecimento técnico de engenheiro de áudio. Hoje, com um investimento relativamente modesto e algum estudo, você grava em casa com resultados que competem com estúdios profissionais.

A revolução do home recording democratizou a produção musical. Artistas independentes produzem álbuns inteiros no quarto, guitarristas postam covers com qualidade de estúdio nas redes sociais, e bandas gravam demos que soam melhores do que muitos discos dos anos 80.

Se você quer começar a gravar suas guitarras em casa, este guia cobre tudo que você precisa saber — do equipamento básico até as primeiras técnicas de mixagem.

Os dois caminhos: microfone vs DI

Existem fundamentalmente duas formas de captar o som da guitarra para gravação:

Microfonação de amplificador

O método clássico: você toca através do seu amplificador e um microfone posicionado na frente do alto-falante capta o som.

Vantagens: - Captura o timbre completo — amp, gabinete, speaker, sala - Som orgânico e tridimensional - A interação entre amp e microfone cria nuances que DI não reproduz

Desvantagens: - Precisa de volume (seus vizinhos vão reclamar) - Requer um bom microfone e posicionamento correto - A acústica do ambiente influencia (para melhor ou pior) - Menos flexibilidade na pós-produção — o som é "gravado em pedra"

Gravação direta (DI - Direct Input)

O sinal da guitarra vai diretamente para a interface de áudio, sem amplificador. O timbre é criado digitalmente — por plugins, simuladores de amp e IR Cabinets.

Vantagens: - Volume zero — grave com fone de ouvido às 3 da manhã - Flexibilidade total — mude o "amplificador" depois de gravar - Consistência — sem variações de microfonação ou ambiente - Custo menor — dispensa microfone e amplificador

Desvantagens: - Depende da qualidade dos plugins/simuladores - Pode soar "digital" se as simulações não forem boas - Menos "feel" durante a gravação (questão pessoal)

Para a maioria dos home studios, DI é o caminho mais prático. E a qualidade das simulações digitais atuais torna essa escolha cada vez mais fácil.

O método híbrido

Uma terceira opção combina os dois: grave o sinal DI limpo (direto da guitarra) e simultaneamente o sinal microfonado do amp. Na mixagem, você pode:

  • Usar só o DI com plugins
  • Usar só o microfone
  • Blender os dois para um som mais complexo
  • Reamplificar o DI por outros amps no futuro

Dica

Sempre grave uma faixa DI limpa, mesmo quando está microfonando o amp. Isso te dá um "seguro" — se algo der errado com a microfonação ou se você quiser experimentar outros sons, o sinal DI está lá, intacto.

Equipamento essencial: o que comprar

Interface de áudio

A interface de áudio é o componente central do home studio. Ela converte o sinal analógico da guitarra em digital (para o computador) e o digital de volta em analógico (para seus monitores ou fone).

O que importa numa interface: - Qualidade dos conversores AD/DA: quanto melhor a conversão, mais fiel o áudio - Impedância da entrada de instrumento (Hi-Z): precisa ter uma entrada dedicada para guitarra/baixo - Latência baixa: o atraso entre tocar e ouvir. Abaixo de 10ms é imperceptível - Preamp de qualidade: especialmente importante se for usar microfone - Drivers estáveis: ASIO no Windows, Core Audio no Mac

Opções populares para iniciantes: - Focusrite Scarlett Solo / 2i2: o padrão da indústria para home studios. Qualidade excelente, drivers sólidos - PreSonus AudioBox: boa alternativa com preço competitivo - Behringer UMC202HD / UMC22: opção econômica surpreendentemente boa - Universal Audio Volt: preamp vintage embutido, ótima qualidade

Para quem busca uma solução ainda mais integrada, o [PRODUCT:cube-baby] funciona como interface de áudio USB — conecte direto no computador via USB-C e grave com os simuladores de amp e IR já aplicados, ou grave o sinal limpo para processar depois na DAW.

Microfone (se for microfonar o amp)

Para gravar guitarra amplificada, você não precisa de um microfone caro. Um único microfone bem posicionado resolve.

Shure SM57: o microfone mais usado para gravação de guitarra na história. Dinâmico, resistente, barato (relativamente) e soa fantástico em gabinetes. Se pudesse ter apenas um microfone para guitarra, seria esse.

Alternativas: - Sennheiser e609: microfone dinâmico flat, pendura direto na frente do gabinete - Audix i5: concorrente direto do SM57, com resposta ligeiramente diferente - Microfone condensador de diafragma grande (AT2020, Rode NT1): para captar mais ambiência e detalhe, posicionado mais longe do gabinete

Fones de ouvido

Um bom fone é essencial para monitorar durante a gravação e para mixar quando não pode usar monitores.

  • Fones fechados para gravação: isolam o som externo, evitam vazamento. Audio-Technica ATH-M50x, Beyerdynamic DT770
  • Fones abertos para mixagem: som mais natural e espaçoso. Beyerdynamic DT990, Sennheiser HD600
  • Para o orçamento: Audio-Technica ATH-M20x ou Samson SR850 são opções acessíveis e honestas

Monitores de estúdio (opcional mas recomendado)

Caixas de som projetadas para reproduzir o áudio de forma plana e precisa — sem embelezar o som como caixas de computador ou sistemas hi-fi.

Yamaha HS5, KRK Rokit 5, PreSonus Eris E3.5 são opções populares para home studios pequenos.

Software: DAWs e plugins

DAW (Digital Audio Workstation)

O programa onde você grava, edita e mixa. Opções gratuitas excelentes:

  • Reaper: tecnicamente não é gratuito, mas a licença é barata (US$60) e a versão de avaliação não expira
  • GarageBand: exclusivo para Mac, vem grátis. Surpreendentemente capaz
  • Cakewalk by BandLab: DAW profissional completa, 100% gratuita (Windows)
  • Audacity: editor simples para gravações básicas
  • Ardour: DAW open source para Linux, Mac e Windows

DAWs pagas populares: - Logic Pro (Mac): o padrão da indústria Apple - Ableton Live: popular para produção eletrônica e performance ao vivo - Pro Tools: o padrão de estúdios profissionais - Studio One: interface intuitiva, ótimo workflow - FL Studio: popular entre produtores, especialmente de música eletrônica

Plugins de simulação de amp

Se você está gravando via DI, precisa de plugins que simulem amplificadores e gabinetes. As opções são vastas:

Gratuitos: - LePou Amp Sims: simulações de alta qualidade de vários amps clássicos - Ignite Amps (Emissary, NadIR): excelente amp sim gratuito + carregador de IR - ML Sound Lab Amped Roots Free: modelagem neural gratuita - Pulse (Lancaster Audio): amp com IR integrado

Pagos: - Neural DSP (Archetype series): estado da arte em simulação digital. Cory Wong, Nolly, Tim Henson, Plini - Line 6 Helix Native: mesma engine do Helix hardware em plugin - Positive Grid BIAS FX: interface visual intuitiva, boa variedade - IK Multimedia AmpliTube: biblioteca enorme de amps e efeitos - Mercuriall: simulações precisas de amps específicos (Spark, ReAxis)

Nota

Antes de gastar em plugins, teste todas as opções gratuitas. Muitos plugins gratuitos de simulação rivalizam com versões pagas, especialmente quando combinados com bons IRs.

IR Cabinets para gravação

Se você grava via DI, IR Cabinets são fundamentais. Eles simulam o gabinete, alto-falante e microfone — sem eles, o som DI é áspero e sem corpo.

O [PRODUCT:cube-baby] já vem com 8 simulações de IR integradas que funcionam tanto na gravação direta quanto no uso como pedal. Para quem quer expandir as possibilidades, o [PRODUCT:cube-sugar] permite carregar IRs de terceiros — abrindo acesso a bibliotecas profissionais inteiras.

IRs gratuitos de qualidade

  • OwnHammer Free IRs: amostra da biblioteca premium, excelente qualidade
  • Celestion IR (samples gratuitos): direto do fabricante de speakers
  • Seacow Cabs: variedade grande de gabinetes e microfones
  • God's Cab: IR lendário da comunidade, baseado em Mesa Oversized 4x12

Usando IRs na DAW

  1. Grave o sinal DI limpo (sem amp sim, sem IR)
  2. Insira um plugin de amp sim na faixa (para simular o preamp/poweramp)
  3. Depois do amp sim, insira um plugin de IR loader (NadIR, Pulse, ou o loader integrado do amp sim)
  4. Carregue o arquivo IR desejado
  5. Ajuste volume e EQ a gosto

Técnicas básicas de microfonação

Se você decidir microfonar o amplificador, a posição do microfone muda drasticamente o timbre captado:

Posicionamento do SM57

  • No centro do cone (on-axis, center cap): som mais brilhante e agressivo. Máximo de agudos e presença
  • Entre o centro e a borda do cone: equilíbrio entre brilho e corpo. A posição mais popular
  • Na borda do cone (off-axis): som mais escuro e encorpado. Menos agudos, mais graves
  • Angulado a 45 graus: reduz a dureza dos agudos, adiciona suavidade

Distância do microfone ao speaker

  • Encostado na tela (close mic): máximo isolamento, som direto e focado
  • 5-15cm de distância: levemente mais natural, captura um pouco do gabinete
  • 30cm+ (room mic): captura a interação do som com o ambiente. Use como segunda faixa para blender

Dica prática

Coloque o microfone no centro do cone, ouça, e vá movendo lentamente em direção à borda até encontrar o equilíbrio que agrada. Cada amp e cada microfone reagem diferente, então não existe posição universal — mas essa técnica de "varrer" da posição brilhante para a escura funciona sempre.

Gravação passo a passo

Método DI (mais comum para home studio)

  1. Conecte a guitarra na interface (entrada Hi-Z/Instrument)
  2. Abra a DAW e crie uma faixa de áudio mono
  3. Ajuste o ganho de entrada: o pico do sinal deve ficar em torno de -12dB a -6dB. Sem clipar (luz vermelha)
  4. Insira plugins na faixa: amp sim → IR loader → EQ (opcional)
  5. Ajuste o buffer da interface para latência baixa (128 ou 256 samples)
  6. Grave: arme a faixa, aperte record e toque
  7. Double tracking: grave a mesma parte duas vezes e pane uma para esquerda e outra para direita. O som fica enorme

Método microfonado

  1. Posicione o amp e microfone conforme as técnicas acima
  2. Conecte o microfone na interface (entrada XLR com phantom power se for condensador)
  3. Ajuste ganho e níveis na interface (mesmo princípio: pico em -12 a -6dB)
  4. Grave simultaneamente o DI (use a segunda entrada da interface para o sinal direto da guitarra)
  5. Monitore com fone (não monitores, para evitar vazamento no microfone)

Dicas básicas de mixagem de guitarra

Gravou suas guitarras? Agora vem a mixagem — a arte de fazer tudo soar bem junto.

Equalização (EQ)

  • Corte abaixo de 80-100Hz: guitarra não precisa de sub-graves. Esse espaço é do baixo e bumbo
  • Cuidado com 200-400Hz: excesso nessa região deixa a guitarra "boxy" e embolada. Corte sutil se necessário
  • Presença em 2-5kHz: onde a guitarra brilha e corta o mix. Boost sutil se a guitarra está sumindo
  • Ar acima de 8kHz: brilho e "zing" das cordas. Cuidado para não exagerar — fica estridente

Panning (panorama)

  • Guitarra única: pode ficar no centro ou levemente deslocada (10-30% L ou R)
  • Duas guitarras (double track): uma para esquerda (80-100% L) e outra para direita (80-100% R). Som de parede
  • Guitarra base + solo: base nos lados, solo no centro

Compressão

  • Ratio 2:1 a 4:1: para controlar picos sem achatar a dinâmica
  • Attack médio-lento: preserva o ataque da palhetada
  • Release médio: acompanha o decay natural das notas
  • Redução de ganho de 3-6dB: suficiente para nivelar sem comprimir demais

Dica

Na dúvida, menos processamento é melhor. Um bom timbre na gravação precisa de pouca mixagem. Se você está gastando horas tentando "consertar" o som na mix, o problema provavelmente está na captação — regrave com outro timbre ou posição de microfone.

Erros comuns em gravação caseira

  1. Gravar com o ganho muito alto: sinal clipando gera distorção digital — diferente e muito pior que distorção de amp. Mantenha margem
  2. Ignorar o tratamento acústico: se está microfonando, o som do ambiente entra na gravação. Painéis absorventes nas paredes ajudam
  3. Excesso de efeitos na gravação: grave o mais "seco" possível. Efeitos são mais fáceis de adicionar depois do que remover
  4. Não double-trackar guitarras: uma única faixa de guitarra soa fina. Double tracking (ou quad tracking) preenche o som enormemente
  5. Monitores ruins ou fone de ouvido inadequado: se você não ouve o que está gravando com precisão, as decisões de mixagem serão erradas

Seu setup mínimo viável

Para começar a gravar guitarra em casa hoje mesmo, você precisa de:

  • Guitarra (qualquer uma serve)
  • Interface de áudio com entrada Hi-Z (ou um multi-efeitos com USB como o Cube Baby)
  • Computador com DAW instalada (Reaper ou Cakewalk são gratuitos)
  • Fone de ouvido decente
  • Plugin de amp sim + IR loader (opções gratuitas existem de sobra)

Investimento total mínimo: o preço de uma interface de entrada (R$300-600) — se já tem computador e fone. É o suficiente para começar a produzir conteúdo, gravar ideias e desenvolver suas habilidades de gravação e mixagem.

O equipamento vai evoluir com o tempo, conforme você identifica o que realmente precisa. Comece simples, grave muito, e cada gravação vai soar melhor que a anterior.

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